Por Goretti Brandão
Quem nasce em cidade do interior, não sei em outros Estados, mas aqui em Alagoas, sabe muito bem o sentido que há nas festas tradicionais. Além dos turistas que chegam a cidade recebe filhos ausentes, de curtas ou longas datas. É assim. Em Pão de Açúcar, cidade localizada as margens do Velho Chico, na divisa com o Estado de Sergipe, as coisas acontecem do mesmo jeito.
Esse ano, o calendário oficial de três dias, marcou em 8, 9 e 10 de janeiro, o segundo final de semana do mês, a realização da festa de Reis. No decurso dela, comemora-se a Festa do Bom Jesus dos Navegantes, com a manifestação e presença dos rituais sagrados: a procissão pelo rio e pela avenida principal da cidade, são exemplos disso. Depois, corrida de canoas, maratonas, fogos de artifício, bandinha de música. Como não poderia deixar de ser, as grandes bandas ocupam o foco central dos eventos. São elas que trazem o turista comum e promovem o entretenimento.
Nada contra o entretenimento, nem contra o turista comum e sem qualquer exigência. Seria pedir demais que as pessoas escolhessem e optassem com o que deveriam se entreter. Seria no mínimo, não compreender o que acontece no mundo de hoje, onde praticamente não se coloca opções de lazer, e se há, a maioria delas está entre escolher produtos iguais, mudando apenas o rótulo. No final das contas, é tudo a mesma coisa. É o abuso da mesmice que nos acomete.
Quer dizer, acomete a uns poucos, muitas vezes orientados pela sensatez, muito mais até do que pelo senso crítico. Sem contar que de um canto a outro, as pessoas fazem vibrar o mais ensurdecedor possível, os sons instalados em seus carros, cada um impondo a sua ‘gritaria’ individual à incapacidade de defesa de uma parcela aturdida do coletivo (na audiência de um desses cantores e cantoras de vozes esganiçadas e, evocando o mau gosto, são bastante apelativas). Crianças, doentes e idosos, são os mais desrespeitados nessas ocasiões.
Vive-se numa sociedade extremamente mal educada e insensível.
A gente chama a isso de festa (?). Pelo menos acontecimentos como esses servem como termômetro, quando, e à medida como reflete o grau de confusão, de vazio existencial apresentados pela dificuldade de conexão entre as pessoas. E, diga-se de passagem: pela dificuldade criada deliberadamente. Ninguém quer ouvir outra coisa senão aquela verborragia demente (me perdoem os que discordam)
Em Pão de Açúcar, senti vontade de que tivéssemos, além do que é repetido todos os anos, algo que a gente pudesse trazer pra casa como agregação de conhecimento de algum tipo de valor humano. Algo que tivesse valor sentimental, citadino mesmo, e que pontuasse no tempo de agora, aquilo que faz história. O que a gente vê é pura simulação, e as pessoas servindo de simulacros. Puro imediatismo.
Que os poetas tivessem no calendário, um momento de poesia, pra quem quisesse ouvi-los, por exemplo...
No mais, um aquário sob o coreto em frente à Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus, hospedou peixes da nossa fauna, que nadavam silenciosos, protegidos pelas paredes de vidro e ausentes do que ocorria lá fora ,e um fantástico por de sol, no final do domingo, justificaram o dia e a cidade. Na segunda-feira, a Pão de Açúcar nada foi acrescentado, salvo, sujeira de copos descartáveis, que provavelmente foram varridos. E às pessoas (para uns poucos), a alegria de rever velhos amigos ausentes. Só isso!
