Um cantor esquecido pela história. Moacyr Franco fala das conquistas, das músicas que fez sucesso, do trabalho desenvolvido, mas confessa: sente-se um “artista esquecido”, não pelos fãs, pelo público, mas por quem escreve a história. Na conversa, procura não demonstrar mágoa, mas é difícil esconder o fato, exatamente pela trajetória artística que ele construiu e continua percorrendo.

“Hoje eu não entendo é porque não estou na história. Não tenho história nenhuma. Sou uma pessoa completamente off. Minha carreira, apesar de tudo, graças a Deus onde quer que eu vá, eu superloto; tenho feito shows de 10 mil pessoas, 20 mil pessoas sentadas, fui esquecido”, comenta Moacyr Franco, que esteve em Natal fazendo show no restaurante A Carreta.

Cantor, ator, humorista, escritor. Moacyr Franco atua em várias frentes, mas confessa que é no palco da música onde está a realização. “A música, a referência, está dentro do coração da pessoa. Para você fazer um humor original, autêntico, de atualidade, você tem que escrever muito bem. A música facilita um pouco isso. Quando você sobe no palco escuta a si mesma”, observa.

Longe de colocar o brega no conceito de estereótipo, o cantor observa que poucas pessoas conseguem ser brega, mas “o brega de sentimento, que emociona, que mexe com o coração”. O convidado de hoje do 3 por 4 é um artista que fala com muita franqueza, demonstra simpatia, mas não esconde a tristeza por ter sido esquecido da própria história que ele mesmo ajudou a construir. É um cantor que enaltece o brega, destaca sentimentos e lamenta que a Música Popular Brasileira seja contada apenas a partir da Bossa Nova.

Quarenta e dois discos de ouro, depois de tudo vivido, como você define a sua carreira?
No começo eu não entendia porque que dava certo minha carreira de cantor, eu não me identificava, cuidava muito mais de televisão, dessa parte de apresentador, de humorista. Era o modelo que tinha. Antigamente tinha os showman, a gente aprendia a tocar instrumento, sapatear. Hoje eu não entendo é porque não estou na história. Não tenho história nenhuma. Sou uma pessoa completamente off. Minha carreira, apesar de Graças a Deus onde quer que eu vá eu super loto, tenho feito shows de 10 mil pessoas, 20 mil pessoas sentadas, fui esquecido. Meu show parece um teatro. Cada ano lanço uma música que dá certo, as vezes não comigo. Por exemplo, essa música sertaneja romântica tenho, pelo menos, dez grandes sucessos com João Mineiro e Marciano, com Chitãozinho, e depois sou campeão de carnaval. Mas eu não sou inserido em nada.

Você diz que está “fora da história”. A que você credita isso?
Essa pergunta é minha. Eu queria saber. Queria escrever: “onde estou?”.

Quem está na história, por exemplo?
Todo mundo. A MPB está na história. Tem gente que gravou um disco, fez um sucesso e está na história.

Isso é uma injustiça com você?
Eu acho.

Seria preconceito com a música romântica?
Eu não consigo entender dessa forma. Vou lhe contar dois episódios. Uma vez Amaury Júnior tinha uma sala ao lado da minha na Rede Bandeirantes e fez um programa sobre os anos 60. Fez um grande show, levou todo mundo da Jovem Guarda, tudo que aconteceu de arte em 1960. Foi uma festa espetacular e rendeu dois meses de programa para ele. E eu não estava incluído. Aí fui na sala de Amaury Júnior e disse: “não vim lamentar não estar na sua festa, mas queria que você tentasse me explicar como é que você me tirou dos anos 60 porque eu ganhei seis Roquete Pinto, que era o prêmio máximo da televisão, ganhei 14 Prêmio Chico Viola, que equivalia ao Disco de Ouro. Fui campeão do carnaval do ano de 1960. Fui ao papa naquele ano”. Eu não consegui entender e nem ele soube explicar. Sempre foi assim. Os irmãos Caruso também fizeram isso. Perguntei como eles me tiraram, fizeram um grande painel de todos os cantores brasileiros em 1971, e eu não estou. Nem assim consegui entrar na história. Eu não estou na história, mas eu estou aqui, vivendo, fazendo a história. Isso para mim é muito bom. Tinha que ter alguma coisa boa.

Existe música brega?
Toda música que emociona é brega. E tem pessoas bregas. Algumas não conseguem alcançar esse estatus. É preciso ter vivência, é preciso se dar, é preciso saber curtir a vida, se não você não conseguirá ser brega. Está ficando raro, está ficando duro porque as pessoas estão ficando muito MPB.

Ou seja, o conceito que você traz de brega “foge” ao estereótipo?
Veja, o conceito que eu tenho é o que é o brega. Todas as coisas que emocionam, todos os filmes, todos os livros que emocionaram a multidão, que fizeram as pessoas se amarem, todos os poetas que mexeram com o coração do povo, que fizeram alianças, entre pais e filhos, tudo isso é brega, então descobri que brega é um privilégio.

Você falou que tem muita “gente MPB”. O que você quis dizer com isso?
Quis dizer que contam a história da música brasileira sempre a partir da bossa nova. Falavam de Brasília e contavam a história da inauguração, falaram de tudo na ocasião, e usaram como referência a bossa nova, Tom Jobim, João Gilberto, e esqueceram que na época tinha Nelson Gonçalves que vendeu 100 milhões de discos. Esqueceram do artista inesquecível que só a Ivete Sangalo teve tanto prestígio de lá para cá até agora, que foi a Celi Campelo. Esqueceram do Carlos Gonzaga, que foi o rei do pop nessa época. Esqueceram do Anísio Silva, que apaixonou os brasileiros na época. Enfim, esqueceram o romance, esqueceram o Brasil de verdade e adotaram como referência os 2% sofisticado de Ipanema porque não significa nem o Rio de Janeiro, é só Ipanema. E olhe que eu estava no movimento da Bossa Nova. Aprendi violão com o Roberto Menescal.

Você continua fazendo shows, levando milhares de pessoas aos shows. A que você credita essa fidelidade, já que não faz tantas participações em programas de televisão?
Se eles me dessem atenção você saberia. É que eu em cada episódio da história do Brasil eu estive presente de alguma forma. Primeiro foi como surgir, como campeão de carnaval, que me levou a fazer um show que viajou o mundo inteiro. Me levou a ser protagonista da única coreografia que o Bob Force fez no Brasil, fui protagonista do “Como vencer no Brasil sem fazer força”, eu, Procópio Ferreira e Marília Pêra fomos protagonistas. Durou um ano o show. Era show freqüentado pelo presidente da República na época. Teve um impacto cultural muito grande. Depois apareceu meu filho Guto Franco, que foi uma espécie de Xuxa, não houve um estádio no Brasil que ele não superlotasse. No Maracanã colocou 120 mil pessoas. Cada época as coisas foram acontecendo na minha vida até que surgiu a música sertaneja, que não é nada disso, é uma música romântica e sentimental. Eu permaneci em evidência e isso me faz ir aos meus shows pessoas de 40 anos foram influenciadas. Há três anos Rita Lee gravou um rock meu que foi para novela da Globo das 20h. Isso me rendeu uma página inteira no Estadão (Jornal O Estado de São Paulo), foi uma análise maledicente da minha carreira, mas eu estou presente. Isso me levou a dar palestras em faculdades.

E o Moacyr Franco ator?
Acho que eu cresci bastante de uns 20 anos para cá. A vida foi me obrigando a aprender. Li pouco, mas escrevi muito. Fui obrigado a virar um pouco mais ator. Fiz um seriado como o “Ó coitado”, fiz “Meu Cunhado”, com o Golias. Recentemente entrei em uma novela e as pessoas diziam que não sabiam que eu era ator. Elas não reparam que para fazer o Jeca Rei que eu faço na Praça é Nossa (do SBT) é preciso ser muito mais ator do que o personagem que eu fiz na novela. O Jeca Rei é um personagem que eu sou muito fiel a região de Goiás, que pertence o personagem.

O que lhe agrada mais: o palco do humor ou o palco da música?
Gosto muito mais de fazer show como cantor. A música, a referência, está dentro do coração da pessoa. Para você fazer um humor original, autêntico, de atualidade, você tem que escrever muito bem. A música facilita um pouco isso. Quando você sobe no palco escutar a si mesmo. Ela quer, na verdade, ela não foi para escutar depoimento meu, ela foi dizer a mim que se emocionava comigo em um tempo bonito da vida dela. Mas se você quer saber minha opinião sobre o humor nesse momento, acho que estamos vivendo um momento muito bom. Há um programa na MTV chamado “Quinta Categoria” que eu acho esplêndido. CQC e Pânico são ótimas saídas. Claro que eles tropeçam muito, eles erram porque cometem o erro de todo ser engraçado. Não tem jeito de humor permanecer assim, tem que ter ponto de referência. Mas acho que estamos vivendo um ótimo momento. Acho que o Tom Cavalcante é um comediante espetacular, se ele pudesse ser dirigido teria uma carreira muito mais longa. Acho a música atual muito boa. Essa música que se faz pela Internet é muito boa.

Mas, você também escreve. O que você leva para o papel?
São várias frentes. Estou fazendo uma história para cinema, que é uma coisa meio vanguardeira, meio ousada. E a outra coisa é com o humor retratar o meu tempo. Tive sorte de estar presente em tudo. Fui político, fui deputado federal, Deus que me perdoe, conheci quase todos os presidentes da República, conheci pessoalmente dois papas. Vivi guerra, vivi racionamento e acompanhei a degradação do planeta. Estou escrevendo muito.

Você escreveu um material para Chico Anísio?
Fiz um seriado para ele, mas ele não teve saúde para realizar. O seriado se chamava “Asilo Político”. Contava a história de um asilo que abriga todos os corruptos do Brasil.

O humorista Chico Anísio está sendo injustiçado?
Não conheço nada mais injusto na história da humanidade. Chico é o maior ator da dramaturgia do mundo. Não há nenhum ator igual ao Chico Anísio. Ele é um ator espetacular, como nada mais vai ter.