O geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos, ex-diretor do Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo, especialista no solo da região da Serra do Mar, alerta para a necessidade de que estradas e construções se adaptem às características da região.

Na noite do réveillon, dezenas de pessoas morreram em Angra dos Reis, depois que deslizamentos atingiram Ilha Grande e o Morro da Carioca. Na ilha, a Pousada Sankay foi soterrada. No morro, casas foram destruídas. Estradas foram fechadas por quedas de barreiras, também causadas por chuvas intensas.


A tragédia provoca debate sobre a forma de ocupação das cidades que ocupam a área da serra. Segundo o geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos, em toda Serra do Mar a formação do solo se deu sobre uma grande camada de rocha. "É uma topografia extremamente acidentada, com índices pluviométricos altíssimos e uma tendência natural a escorregamentos de terra e rocha", avalia.

O geólogo explica que há diferentes tipos de movimentação de terra na região. O escorregamento ocorrido na Ilha Grande tem características diferentes do que ocorreu no Morro da Carioca, na parte continental de Angra dos Reis.

 

Segundo ele, a situação na Ilha Grande é considerada mais sensível, já que a camada de solo assentada sobre o lajedo de rochas é mais superficial. Por sua vez, na parte continental, o acidente está mais ligado à ocupação desordenada da área urbana.

"O risco na Serra do Mar é permanente. Há milhões de anos a serra é caracterizada por esses eventos. Os municípios ao longo dela têm que ter condição de planejar seu crescimento urbano", diz. Ele cita como instrumento básico a carta geotécnica, que mostra os terrenos que não podem ser usados ou que devem ter critérios rígidos para utilização.

Ainda sobre as formas de utilizar o solo da região, ele lembra que as técnicas construtivas das estradas como a Rio-Santos e a Mogi-Bertioga são antigas e mostram uma relação ultrapassada da engenharia com a Serra do Mar.

"São estradas que optaram por cortar as encostas e que ainda vão pagar um altíssmo preço por essa imprudência técnica", avalia. Ele cita como exemplo a ser seguido a última pista da Imigrantes, que privilegiou túneis e viadutos.