Com a disposição e o ânimo renovados pelos últimos prognósticos médicos de que caminha celeremente para a cura do câncer que o acometeu há 12 anos, o vice-presidente da República, José Alencar, de 78 anos, fala de eleições - com planos de disputar um cargo, \'se estiver curado\', ressalva -, defende o presidente Lula e seu governo com uma convicção impressionante e aposta que Minas estará muito bem representada na eleição presidencial de 2010. Mas, como bom mineiro, deixa a dúvida se está falando da ministra Dilma Rousseff, mineira de nascimento e gaúcha de formação política, ou do governador Aécio Neves. Mas diz, porém, que seu candidato será o mesmo do presidente Lula. Para ele, não está claro ainda que o paulista José Serra será o candidato do PSDB:
- O governador Serra tem um pássaro na mão, que é a reeleição.
Ao enumerar qualidades do governo, Alencar reconhece que ainda há o que fazer e que nem tudo é perfeito, mas exime Lula de qualquer responsabilidade no maior escândalo do governo petista, o mensalão de 2005:
- Eu boto a mão no fogo por Lula.
Em entrevista ao GLOBO, em seu gabinete no prédio anexo do Planalto, o vice-presidente falou sobre seu cotidiano, economia e, emocionado, sobre as mensagens de solidariedade que recebe todos os dias.
- Estou muito bem hoje. Não sei amanhã, que a Deus pertence.
O presidente Lula termina o ano otimista. O senhor também?
JOSÉ ALENCAR: O Brasil nunca esteve tão bem. Nunca alcançou esse patamar no conceito internacional. A verdade é essa. É impressionante o trabalho nos negócios externos.
Tem também o fator sorte?
ALENCAR: É competência do presidente, é inteligência. Ele tem sorte também. É aquela história, você faz bem feito, se dedica, aí a sorte ajuda.
O senhor pretende disputar eleição em 2010?
ALENCAR: O pessoal quer que eu dispute. Eu ainda não... Só se eu estiver curado. Se estiver curado, posso aceitar o convite, mas prefiro alguma coisa no Legislativo. Não quero cargo no Executivo. Mas se estiver são, como tudo indica que estarei - e está caminhando celeremente para isso -, posso aceitar.
O seu partido, o PRB, gostaria que o senhor disputasse a Câmara para puxar votos.
ALENCAR: É preciso ver se puxa mesmo. Eles são generosos, mas toda a eleição é disputada e é cedo ainda.
Dizem em Minas que, em 2010, só tem uma vaga ao Senado, pois a outra é do senhor...
ALENCAR: (Risos) Veja bem. Cada eleitor tem direito a dois votos para o Senado. Isso duplica votos. Mas sempre tem muitos candidatos. Em 98, quando disputei, também tinha muitos.
Agora tem o governador Aécio Neves, o ex-presidente Itamar Franco ...
ALENCAR: É uma eleição rica. Vai ser animada.
E a eleição presidencial. O quadro está se definindo...
ALENCAR: Também é cedo. Vai continuar se definindo.
O que o senhor acha que vai acontecer em 2010?
ALENCAR: O Brasil inteiro deseja ter segurança de que o trabalho desenvolvido pelo governo seja prosseguido. É o que todos desejamos. Há vários bons candidatos, só que nenhum é candidato ainda. O governador Serra, por exemplo, tem um pássaro na mão, a reeleição. Temos de aguardar até que ele tome a decisão. Não posso falar do PSDB, não é meu partido.
Como mineiro, o que acha da decisão do Aécio?
ALENCAR: O Brasil está com saudades de Minas. Como ele, Minas tem muitos nomes.
Por exemplo?
ALENCAR: Não vou citar para não omitir. Minas está sendo chamada. O Brasil gostaria que Minas estivesse presente...
Considera a ministra Dilma mais mineira ou mais gaúcha?
ALENCAR: Ela é mineira. Onde ela nasceu? Quem nasce em Minas é mineiro. Se ela nasceu em Minas, é mineira. Mas não é candidata ainda.
Lula já disse mais de uma vez que ela é candidata.
ALENCAR: Para ser candidata tem de ter registro e não é tempo de registro.
Considerando Aécio fora da disputa, acha que esse fator...
ALENCAR: Não sei raciocinar assim. Seria um jogo, uma aposta, alguma coisa de loteria. Não sei fazer isso. O Aécio fez um gesto para dar espaço para que Serra defina. Se o Serra diz que vai ser candidato a governador, o Aécio pode ser candidato a presidente? Depende dos acontecimentos até lá, do que estiver posto. Está tudo longe.
Num cenário com Aécio e Dilma, como o senhor ficaria?
ALENCAR: O meu candidato é o candidato do presidente Lula. Qualquer que for, porque sou vice-presidente graças à eleição do Lula, ninguém vota em vice.
O senhor considera a pré-candidatura da ministra Dilma bem encaminhada, com futuro?
ALENCAR: Conheço a Dilma. Independentemente de candidatura, a Dilma é uma mulher brava, determinada, séria, competente, dedicada ao que faz, responsável. Ela possui todas as condições para exercer qualquer tipo de responsabilidade.
O Brasil está preparado para eleger uma mulher ou ainda tem preconceito?
ALENCAR: Acho que não tem. O Brasil é país de primeiro mundo graças ao trabalho do Lula. País respeitabilíssimo onde quer que a gente chegue. O Lula era líder sindical dos trabalhadores, mas nenhum presidente respeitou tanto os objetivos elevados das classes produtoras. Tem colaborado para que haja oportunidade de crescimento de todas as categorias, prestigiando o setor privado.
Quando entrou no governo esperava esse desempenho?
ALENCAR: Sabia que seria um bom governo. Votei no Lula em 89, no segundo turno. Acompanhava o trabalho dele como líder sindical. Ainda que fosse intransigente, ele respeitava. Não imaginava que fosse tão bom na política externa.
Nem esperava que ele fosse tanto ao exterior, não é?
ALENCAR: Não. Na campanha, em Natal, disse: "Gosto daqui, o Lula vai ganhar a eleição, mas não vou assumir, porque Lula não vai viajar para o exterior, vai viajar para o interior do Brasil. Falei com a Mariza, vamos nos mudar para cá". Tempos depois uma eleitora cobrou a promessa. Expliquei que iria morar lá porque o Lula não ia viajar para o exterior (risos)... Assumi mais de 420 dias, 90 só este ano.
O que os candidatos governistas têm a mostrar?
ALENCAR: O que o Brasil deseja? Continuidade do apreço aos humildes, inclusão social, trabalho sério no campo dos negócios externos. Possíveis candidatos têm de levar em consideração que o Brasil deseja a continuidade do trabalho. As pessoas estão a favor do que está sendo feito.
E o discurso da oposição?
ALENCAR: A oposição pode dizer que vai dar continuidade ao trabalho. Rende votos a eles.
E os pontos fracos do governo? Teve o mensalão...
ALENCAR: Não há nada que possa atingir o presidente. Nada, nada. É questão partidária. Boto minha mão no fogo por Lula. Ele nunca desviou recursos públicos para os chamados recursos não contabilizados.
E agora temos mensalões em outros partidos...
ALENCAR: Não fazer a reforma política é a grande frustração do Lula. Conversamos sobre isso. Não pode continuar (caixa dois), os partidos não podem aceitar, a impunidade é o problema.
Que balanço faz destes sete anos? Sua saúde, o trabalho...
ALENCAR: O fato de eu passar um período longo em tratamento nunca me afastou das minhas responsabilidades. Nunca deixei de assumir quando o presidente Lula viajou. Sempre cumpri agenda. Houve quem tivesse dito que a recompensa para o trabalho é o trabalho. Quem trabalha tem o que fazer, e o trabalho é um dádiva de Deus.
E como está a saúde hoje?
ALENCAR: Os tumores estão definhando, secando, desaparecendo. Um médico disse semana passada (penúltima semana de dezembro) que "havia um tumor no Zé Alencar". Estou muito bem hoje, não sei amanhã, que a Deus pertence.
Não falamos sobre juros...
ALENCAR: Não seja por isso, vamos lá! Continuo repetindo que a política econômica no Brasil é excelente, apesar da política monetária e não graças a ela.
O Banco Central admite que os juros devem voltar a subir em abril..
ALENCAR: Para quê? Lula manda consumir, manda investir e o Copom (Conselho de Política Monetária) adota política diametralmente oposta, com taxas de juros para inibir o consumo e inibir o investimento. O Copom é eminentemente técnico, não tem olhos políticos. É um regime de juros criminoso.