O Ministério Público do estado do Mato Grosso investiga uma fundação que, segundo denúncias, só existe no papel. Além de ter prejudicado várias famílias em Cuiabá com uma ordem de despejo em um terreno, ela não executou nenhum serviço filantrópico na região e ainda pode ter desviado cestas básicas.
Cerca de 18 famílias ocupavam o terreno no bairro Ribeirão do Lipa, em Cuiabá. Elas foram despejadas por ordem da justiça. Mais de 30 casas de alvenaria e madeira foram demolidas e hoje as famílias estão alojadas em um barracão. A Justiça reconheceu que a área de 2 hectares pertencia à Fundação Padre Cícero. O terreno foi doado pelo Governo do Estado há mais de dez anos.
A entidade se comprometeu a desenvolver ações relacionadas a saúde, educação e meio ambiente. Em um documento, os dirigentes da fundação informaram que construíram no terreno um prédio que abrigava um pequeno hospital. Mas os vizinhos e os moradores que ocupavam a área, negam.
- Ali existia um galpão, que nem porco não tinha criando lá. Quanto mais ser humano fazendo uma consulta e recebendo um remédio - relatou Maria das Graças, moradora do bairro.
O ex-tesoureiro da entidade, João Ferreira de França, nega as acusações.
- Eu admiro este pessoal vizinho dizer que lá não existiu isso. Todo mundo ia procurar remédio e quem chagava lá era bem atendido - disse o ex-tesoureiro.
A fundação também é suspeita de desviar cestas de natal, que deveriam ser doadas às famílias carentes. Em 2006, a entidade recebeu da Secretaria de Trabalho, Emprego e Cidadania de Cuiabá, 130 cestas de natal, que deveriam ser entregues para crianças pobres do bairro. Mas na lista de entrega aparecem nomes de pessoas que dizem nunca ter recebido qualquer doação.
- Nós nunca recebemos nada, nunca deram nada pra gente não - relatou Milena Aline.
O promotor Marcos Machado investigou os indícios de irregularidades e comprovou que a fundação não prestou serviços na área social. E por isso pediu a extinção da entidade.
- Não há indícios de crimes por parte deles, criaram na época para prestar serviço de saúde e nunca fizeram. Agora que o Ministério Público criou uma promotoria especializada para fiscalizar o funcionamento dessas fundações, nós descobrimos que essa fundação existia só no papel. Agora nós estamos buscando a reversão desse imóvel para finalidade social - informou no promotor.
O advogado da fundação disse que os dirigentes não se opõem à extinção da entidade. Ainda segundo o advogado, a propriedade pertence à fundação, portanto, pode ser utilizada para outros fins.
As famílias que foram obrigadas pela Justiça a desocupar a área aguardam a doação de um terreno pela Prefeitura de Cuiabá.
- É a única coisa que eu quero pra todo mundo que está aqui. Uma casa digna para dar educação para meus filhos - Cíntia Ribeiro, morada despejada.