Por Goretti Brandão
O balé Eliana Cavalcanti fez uma maravilhosa apresentação em Olho D’Água das Flores, cidade do sertão alagoano. Eventos dessa natureza deveriam estar na pauta das assessorias de cultura de todas as prefeituras, não apenas as de Alagoas, mas de todo o país.As racionalizações coletivas são amplamente difundidas quando se refere ao gosto popular. Quando questionamos a mídia, a resposta é sempre a mesma: Diz-se que as pessoas simples não gostam de ‘cultura’.
Esse discurso antes de qualquer coisa é claramente elitista e discriminatório, e se vale de intenções mesquinhas. Encobre o ponto nevrálgico da questão, e desloca a ótica da situação para uma possível incapacitação de uma enorme parcela da sociedade na fruição desses produtos. Esconde-se, portanto, que a oferta deles é para o deleite de alguns poucos privilegiados. Saber é poder. Aprendemos isso cedo. Essa premissa é estendida ideologicamente para todos os níveis das relações humanas.
O homem comum é diferente? Menos capaz intelectualmente? Menos inteligente? Com toda a certeza, não, o que o faz sê-lo, no entanto, é a apropriação daquilo que promove o conhecimento, (como consequência, a expansão e o exercício do pensamento nessas pessoas, do que é bom, daí do que é justo, do que é viável, enfim, do que é seu por direito), sob o domínio daqueles que há muito, estão colocados em posições ‘especias’, onde vivenciam e praticam continuadamente, esse controle.
Nietzsche em um dos capítulos do livro, Assim falou Zaratrustra, expõe seu pensamento acerca da vontade de potência, onde declara: "onde encontrei vida, encontrei ali vontade de potência; e até mesmo na vontade daquele que serve encontrei vontade de ser senhor" Esse pensamento abaliza e justifica, o desejo orgânico que predispõe o homem, ao exercício dessa vontade. O discurso do poder instituído e cheio de racionalizações preconizadoras, priva, exclui e desapropria o ‘potencial’ para a fruição desses produtos, à maioria da população.
Como substititutivo cultural – entenda-se, por favor, a apresentação pejorativa da palavra cultura, oferece-se às pessoas o péssimo produto do que se chama Indústria Cultural. Ou seja, as mesmices de sempre, as repetições daquilo que não tem qualidade, nem criatividade. Há um esvaziamento na raiz da possibilidade questionadora do sujeito. Há a artrose no exercício dessa vontade de potência, em detrimento daquilo que é diluído sem ser mastigado e saboreado devidamente.
O cidadão comum de Olho D’Água das Flores – graças a feliz idéia de quem levou o espetáculo até lá -, pode apreciar a manifestação da deusa Terpsícore, a deusa grega da dança, através do corpo de balé, vindo da capital alagoana. O evento foi em prol da reforma da residência das irmãs claretianas. Idosos, adultos e crianças, compareceram ao Ginásio de Esporte da cidade sertaneja. Durante os intervalos da apresentação, jovens músicos olhodaguenses ofereceram à platéia peças clássicas, executadas em teclado, guitarra e violinos.
É assim que se faz! Está provado que as pessoas são capazes de apreciar e fruir o que é bom. Basta que isso lhe seja servido.
