Foi uma recepção de rei. Enquanto as últimas urnas eram fechadas nos colégios eleitorais da Bolívia, por volta das 18h de Brasília, a praça Murillo, em frente ao palácio presidencial de La Paz, começava a encher de gente. Eram desde crianças brincando com pombas até senhoras que queriam \'garantir um bom lugar para ver a festa da vitória do presidente Evo Morales\'.
Leia também: Morales discursa como presidente reeleito
Vendedores ambulantes foram se acomodando e, aos poucos, bandeiras azuis do Movimento ao Socialismo (MAS, partido de Morales) eram vistas rodeando as escadarias. Grupos organizados chegavam cada vez mais perto do palácio.
O principal oponente, Manfred Reyes Villa, aceitou implicitamente a derrota, criticou o processo eleitoral e prometeu fazer uma oposição "consciente".
Havia índios mascando folha de coca, chilenos e peruanos \'inspirados por Morales\' e australianos que se viram sem carro num domingo de suas férias e acabaram na praça pra \'ver o que estava rolando\'.
As brasileiras Sandra Teresa Tolfo e Urda Alice Klueger saíram de Blumenau só para ver a eleição. "Saímos dia 30 do Brasil e chegamos na última sexta-feira (4) a La Paz. Tudo para ver a festa de Evo."
Após a divulgação das pesquisas de boca de urna, que indicavam Morales vencedor com pelo menos 61% dos votos, a frequencia de chegada de pessoas aumentou. E começaram os gritos sincronizados: "Evo de novo!", "Bolívia avança, Evo não se cansa", "Evo, amigo, o povo está contigo" - entre outros com palavrões direcionados à oposição.
Por volta de 23h, um palco foi montado à esquerda do palácio e um enorme boneco inflável surgiu em meio à multidão. Uma banda começou a tocar ritmos locais e músicas cujas letras evocavam as mudanças feitas pelo primeiro presidente índio que a Bolívia já teve.
Entre balões e bandeiras, o membro do conselho nacional do grupo indígena Conamaq Sérgio Hinojosa disse que é esse o processo de mudança que seu país precisava. "O povo indígena já derramou muito sangue. A Bolívia não quer mais ser dominada. A Bolívia quer viver tranquila."
Hino de punhos fechados
Às 23h30, a praça estava intransitável. Novas bandeiras, de movimentos e grupos menores, e placas pedindo até a nacionalização dos meios de comunicação tomavam conta da visão acima das cabeças das pessoas. Já tinham se passado mais de três horas desde a divulgação dos resultados de boca de urna e o povo só queria \'Evo, Evo\'.
Foi então que um clarão surgiu na varanda do palácio e os olhares se voltaram para cima. Evo Morales apareceu com seu traje discreto de sempre e com postura de vencedor. Antes que ele começasse a falar, a banda tocou o hino nacional boliviano. A multidão cantou com o braço para frente e os punhos fechados.
Morales fez seu discurso baseado nas responsabilidade que assumiria, no apoio que conseguiu e no trabalho que ainda falta fazer. Ele disse que os dois terços obtidos no Congresso serão o caminho para aprofundar as mudanças.
"Agora sim temos o caminho aberto, nos entendendo como bolivianos, o caminho aberto para aplicar a Constituição aprovada em janeiro", acrescentou. Ele agradeceu a todos os departamentos e todos os que o ajudaram voluntariamente. Cada frase sua era seguida de gritos e palmas. Depois de terminar, 15 minutos de fogos de artifício mantiveram os olhares no alto.