Dois meses de negociação.
Mas valeu a pena.
Dunga, o técnico da Seleção Brasileira aceitou dar uma reveladora exclusiva ao blog.
E ele falou sem medo.
No aeroporto de Cumbica, em São Paulo.
Estava vindo de Porto Alegre e esperando o embarque para a África do Sul.
Para o sorteio da Copa.
Na tarde de quarta-feira.
E ele foi firme.
Não deixou pergunta sem resposta.
Fez várias revelações.
Entre elas a que não ficará um dia à frente da Seleção após a Copa da África.
Mesmo se o Brasil for campeão.
Deu a sua palavra, mesmo sabendo que, se for hexacampeão mundial, receberá convite para formar o time brasileiro para o Mundial de 2014. E disputar a Copa aqui.
Ironizou o medo da França e Portugal no sorteio de hoje dos grupos da Copa do Mundo.
Antecipou que vai trancar a Seleção Brasileira na concentração na África.
Não haverá farras como em 2006.
Nem a permissividade com os veículos mais poderosos de comunicação.
Deixou escapar que não cederá à pressão popular por Ronaldo. Muito menos por Roberto Carlos.
Lembrou o quanto Felipão foi firme em relação a Romário em 2002 e que não se arrependeu.
Pelo que falou e, principalmente, pelo que não falou, só gesticulou e fez caretas, as chances de Ronaldo e Roberto Carlos são quase zero.
Não pelas baladas, mas pelo lado físico. Garantiu que só levará para o Mundial jogadores no ápice de sua forma.
Fica um aviso para quem tentar desafiá-lo e se apresentar acima do peso.
Como aconteceu, por exemplo, com Adriano na Alemanha.
Só parou de falar quando agentes da Polícia Federal o levaram para o embarque.
Sem mais delongas: Dunga.
Você teme o fato de a França e Portugal não serem cabeça de chave? Eles podem cair no grupo do Brasil na primeira fase?
Olha, o brasileiro tem um costume que eu não concordo. Pensa sempre que o pior vai acontecer. E eu quero deixar bem claro que não acho cair no grupo da França ou Portugal o pior. Todo o trabalho nesses três anos e meio foi feito com uma meta: chegar o melhor possível para a Copa do Mundo. Eu estou indo acompanhar o sorteio dos grupos da Copa com a maior tranqüilidade possível. O Brasil não teme adversário. Lógico que começar contra seleções mais fracas e depois pegar as mais fortes no caminho seria melhor. Mas eu falo com toda a sinceridade: não tenho medo de França nesta primeira fase, de nada e de ninguém. O trabalho foi bem feito e temos condições de enfrentar quem estiver na nossa frente. Respeitando a todos, mas não esquecendo que somos a Seleção Brasileira.
Isso significa que você não está preocupado com o sorteio?
Não estou nem um pouco preocupado, não. Quando você sabe que fez a lição de casa como deveria, sua convicção de que tudo vai dar certo é maior. Eu sempre fui assim na minha vida. Venha o adversário que vier, estaremos preparados para ele. Não estou falando só por falar. É o que eu penso, o que eu sinto.
De onde vem essa convicção?
Do que fizemos na Copa América, na Copa das Confederações e nas Eliminatórias. Muita gente duvidava do meu trabalho. Eu sei disso. Era uma pessoa que teve uma carreira vencedora como jogador de futebol. Vitoriosa e longa. Já tinha vivido tudo o que se possa imaginar no futebol Só que era estreante como treinador. Fui chamado para mudar todo um cenário. Não foi fácil. E consegui resultados expressivos. Consegui o que vários técnico vividos, experientes não conseguiram. A pressão foi enorme, mas serviu para moldar a forma, o meu jeito de meu de trabalhar na Seleção. Fiz um longo trabalho de observação, dei chances a quem merecia. Escolher jogadores entre tantos talentos é uma das missões mais difíceis. Mas conseguimos montar um grupo em que acredito. Estou convicto que o nosso trabalho foi o melhor possível para a Copa.
Você falou que teve de mudar todo um cenário. Está falando sobre a enorme decepção do Brasil na Copa da Alemanha?
Eu estava lá e sei que houve muita coisa que não deu certo. E eu fui campeão do Mundo e capitão da Seleção na Copa dos Estados Unidos. Houve uma mudança de filosofia, de atitude em relação ao que aconteceu na Alemanha. Não vou me aprofundar porque não fazia parte da Seleção, só posso dizer que o meu trabalho foi e será durante o Mundial exatamente como eu sou: muito sério, comprometido. Para tentar ganhar uma Copa do Mundo é preciso muita doação, entrega, seriedade. E teremos tudo isso na Copa da África. Falo porque conheço profundamente o grupo que formei.
Você quer dizer que não haverá aquela farra na preparação do time na Suíça, como aconteceu em 2006? E os jogadores estarão liberados para baladas até as cinco da manhã em plena Copa do Mundo? Será que você conseguirá controlá-los por tanto tempo?
Foi ótimo você ter feito essa pergunta. Eu vou antecipar a você que a Seleção Brasileira fará na África do Sul algo que a imprensa sempre cobrou. Eu cansei de ouvir que vocês jornalistas apontam que as seleções européias é que estão certas. Então vamos seguir o caminho do profissionalismo, da modernidade que eles adotam. Eu não quero ninguém reclamando na África. Estou avisando antes. Vamos ser tão ou mais profissionais que os europeus em relação a tudo. Principalmente em relação à imprensa. E eu quero falar mais: tudo o que vocês acusam que a Seleção fez na Alemanha…
(interrompendo)Você quer dizer farras, baladas, festas pela madrugada em plena Copa…
Sim…Essas coisas. Quero ser bem claro para que você e todos me entendam. Essas situações vieram de fora para a Seleção. Não foram os jogadores que impuseram nada. Eles tiveram a liberdade e não fizeram nada além disso. Não podem ser acusados de nada. O que atingiu a Seleção Brasileira não partiu da própria Seleção, dos jogadores. Havia ordem, liberdade para isso. Muitas acusações são injustas porque nada além do combinado estava acontecendo.Ninguém fugiu da concentração e foi para balada. Era permitido. Comigo não será. Ponto final. Tudo transparente, combinado antes. Eu sou direto. Comigo não há mal entendido.
Já entendi. O Parreira deu essa liberdade. E você não deixará tudo tão solto. É isso?
Você é inteligente. Sabe o que eu quero dizer. E importante: não estou acusando ninguém particularmente. Falo sobre o contexto. Não sei até que ponto qualquer pessoa, mesmo o Parreira, tinha como impor certos limites. Em Copas anteriores houve liberdade até exagerada e o Brasil voltou campeão. Só que os tempos mudaram. O preparo físico, a concentração, o foco tem de ser total. Não aceita deslize. E quero dizer que nestes três anos e meio de convívio com a Seleção nós disputamos torneios oficiais e fizemos vários amistosos. Ficou bem claro o comprometimento, todos que têm trabalhado comigo sabem o que significa estar na Seleção Brasileira. E na Copa a dedicação de todos será ainda maior.
Você acha que conseguirá controlar os jogadores nesse mês de competição? E as baladas após as partidas? Eles estarão liberados?
Repito apenas que a palavra comprometimento tem um sentido muito claro para mim. A Copa fica para a vida inteira. O jogador que for para lá sabe o quanto vale a pena estar mergulhado de cabeça no Mundial e não pensar em mais nada. Eu estou tranquilo. A Seleção Brasileira estará protegida dos fatores externos. Até da imprensa. Repito: faremos exatamente como as seleções da Europa. (Dunga não quis dizer claramente, mas as entrevistas estarão restritas. O contato com os jornalistas será superficial. Limitado às entrevistas coletivas que a Fifa exige. Nada além. Na Alemanha vários deles ficam esperando o horário dos principais telejornais da televisão. Atendiam na própria concentração. O treinador já pediu e conseguiu com o comando da Seleção que isso não aconteça no ano que vem. A concentração será sagrada, só dos jogadores e Comissão Técnica.)
O grupo está formado? Não haverá grandes surpresas?
O próprio trabalho mostra uma coerência. Uma meta. Há uma base formada. Isso todos sabem. Mas a porta da Seleção Brasileira nunca estará fechada. Podem me acusar do que quiser, chances não faltaram. O trabalho de observação foi bem feito tanto que os resultados falam por si. Mas a Seleção Brasileira nunca estará de portas fechadas. Não seria louco de dizer faltando mais de seis meses que os 23 jogadores estão definidos. Lógico que não. Jogadores talentosos não param de aparecer. Mas eu tenho uma base e ela é muito sólida.
Ainda há uma posição em aberto. A lateral esquerda. O Roberto Carlos tem chance?
Todos os jogadores têm chance. Principalmente os atletas que eu já chamei (e ele nunca chamou Roberto Carlos). Observei mesmo com muito cuidado essa questão da lateral esquerda. Por 12 anos deixaram que jogadores fossem donos das laterais (Cafu e Roberto Carlos). Até porque eles eram mesmo os melhores na posição. Agora, não. Está havendo a renovação.É natural. Não estou perseguindo ninguém. A vida é uma renovação constante. Para a lateral esquerda há jogadores que passaram pela posição comigo e que podem voltar à Seleção. Atletas que que eu quero e vou observar novamente. Acompanharei de perto os jogadores que estão na Europa. Sei que podem me criticar quando falo que vou estar na Europa, mas os melhores estão lá. Não é minha culpa que, quando surge um grande talento aqui no Brasil e ele é convocado, em dois meses ele vai atuar no futebol europeu. O problema é a força financeira dos clubes brasileiros e dos clubes europeus. Não há comparação.
Jogadores mais jovens, com condição física plena terão mais chance de chegar ao Mundial da África?
Isso é uma coisa óbvia. O futebol mundial está competitivo demais. Sem críticas a gerações passadas que deixaram marcas inesquecíveis na Seleção Brasileira, os tempos mudaram. Hoje o espaço para jogar diminuiu. Só pega na bola em uma Copa do Mundo quem está muito bem fisicamente. Lógico que isso contará muito na escolha do time que vai até à África.
Chegamos na questão inevitável: Ronaldo.(Dunga fecha a cara.) Você o conhece intimamente desde a Copa de 1994. Você sabe o que ele pode fazer e o que não pode dentro do campo. Ele tem 33 anos e está gordo. Mas irá disputar a Libertadores pelo Corinthians. Se for bem você terá de enfrentar o que o Felipão enfrentou em 2002 com o Romário. Você acha que terá força para dizer não a uma grande pressão popular por Ronaldo?
Olha, vou dizer uma coisa que marca o futebol. As coisas são muito iguais. São repetitivas. Essa situação do Ronaldo pode ser sim parecida com a do Romário. O respeito como grande jogador. Não vou negar isso nunca. Mas não me deixo levar por pressão popular, de televisão, de imprensa paulista, de quem quer que seja. Eu tenho as minhas convicções do que é melhor para a Seleção. E tenho liberdade para tomar a decisão que achar melhor. O Felipão levou quem ele achou que não deveria para a Copa de 2002? Então…As coisas são muito repetitivas no futebol brasileiro. As pessoas não percebem ou pior, fingem que não percebem. A polêmica traz audiência. Repito…Só levarei que eu eu achar que for melhor para a Seleção. Não há nada de pessoal. Minhas escolhas são e serão para o bem da Seleção Brasileira.
Até porque você tem jogadores que deram ótima resposta no ataque. Como o Luís Fabiano, o Adriano, Robinho e agora o Nilmar vem em ótima fase…
Não quero falar individualmente. Não vou falar os atacantes que estão na frente para ser convocados. Se as pessoas não percebem, não acompanharam as minhas convocações e os jogos, não é problema meu. Mas não é ótimo saber que quando o Robinho não puder jogar nós temos um jogador veloz e com o potencial do Nilmar? Não é ótimo? Os últimos jogos dele pela Seleção deixaram a todos animados…
Dunga…
Eu já preciso embarcar…
As últimas, por favor. Você já sabe em que lugar da África o Brasil ficará antes da Copa? Angola? Moçambique?
Olha. Não há uma decisão tomada ainda em relação a este lugar. Eu só posso falar a você o que eu disse ao presidente Ricardo Teixeira. Nós precisamos de uma cidade com um clube igual ao que iremos encontrar na África do Sul durante a Copa do Mundo. Quero uma cidade com baixa temperatura, fria. E que fique na altitude. O país quem vai definir será a CBF. Nosso planejamento será o melhor possível. E repito: desde antes da Copa a Seleção estará recebendo tratamento europeu que eu já disse. Estou falando agora, em dezembro, os jogadores terão toda a tranqüilidade para trabalhar. Se tiverem de ficar um pouco mais isolados, como os europeus que vocês da imprensa tanto gostam, vão ficar. Eu tenho de ir embora…
Por favor essa é a última pergunta, prometo. Várias pessoas na CBF, a começar pelo presidente Ricardo Teixeira, estão entusiasmadas com seu trabalho. E inclusive cogitam sua permanência para a Copa de 2014. Você quer ficar se ganhar a Copa?
Eu serei o mais claro possível. Não fico de jeito nenhum. Nem se for campeão. Não há como me convencer. Sou um homem de palavra. Meu compromisso com o presidente Ricardo e com a CBF termina com a Copa do Mundo. Sei que a próxima Copa acontecerá no Brasil. Mas não há nada no mundo que me faça mudar de idéia. É uma honra estar no lugar mais cobiçado do futebol mundia. Ter o privilégio de comandar a Seleção Brasileira. Mas é uma das cargos que mais exigem da pessoa. A pressão é enorme. E não só para você. É pressão para a sua família, para as pessoas com quem você se importa na vida. Quatro anos está bom demais. Sinto que aprendi e estou aprendendo muito. E que, graças a ajuda de muita gente, a começar pelo Jorginho, estou conseguindo cumprir a missão que o presidente Ricardo me passou. Assumi a Seleção desacreditada, vindo do baque da Copa de 2006 e tenho certeza que estou fazendo um trabalho digno. E será assim até a Copa do Mundo. Depois, eu vou seguir a minha vida. Não fico de jeito nenhum. Pode escrever. E eu não volto atrás no que falo…
Você vai seguir como técnico ou pode assumir outro cargo na Seleção, como coordenador?
Vou continuar como técnico. Essa é a minha nova carreira e não quero mudar. Não há motivo. Só não vou ficar na Seleção Brasileira. A minha decisão já está tomada. Agora eu tenho de ir…(Agentes federais o levam rapidamente para a sala de embarque para a África do Sul…)



