O delegado Itagiba Franco, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Polícia Civil de São Paulo, informou na manhã desta quarta-feira (2) que os torcedores que se envolveram em uma briga com o jogador do Palmeiras Vagner Love negaram ter feito ofensas raciais contra o esportista. Entretanto, de acordo com o delegado, eles admitiram ter cobrado melhor empenho do jogador em campo.
Os torcedores têm 19, 20 e 25 anos, e foram presos em flagrante na terça-feira (1) por suspeita de racismo, crime inafiançável. De acordo com Franco, eles devem permanecer presos até decisão da Justiça. “Eles negaram que tivessem ofendido o Vagner na questão de racismo, disseram que também foram agredidos pelo Vagner, mas eram três contra um, duvido que ele [Vanger Love] conseguiria enfrentá-los”, disse o delegado ao G1.
Segundo Franco, um dos presos já tem três passagens pela polícia por agressão e formação de quadrilha. Os três fazem parte de uma torcida organizada. Eles permanecem presos na carceragem do DHPP na manhã desta quarta, aguardando vaga no sistema prisional.
A confusão aconteceu quando o jogador deixava uma agência bancária em Perdizes, Zona Oeste de São Paulo, próxima ao Palmeiras. Como muitos jogadores têm contas no local, o jogador disse não saber se foi seguido ou se os torcedores o aguardavam. “Ele contou que saiu do banco, entrou no carro, e começaram as cobranças, os xingamentos. Ele teve uma discussão com os três, que passaram a agredi-lo. Houve uma briga, e acabaram rasgando a roupa dele”, explicou o delegado.
Em seguida, houve uma aglomeração de pessoas no local e os torcedores fugiram. A Polícia Militar, entretanto, já havia sido acionada, e conseguiu prender os três no bairro da Lapa, também na Zona Oeste. “Não houve nenhum tipo de resistência, eles confessaram que foram eles mesmos”, contou Franco.
Segundo o delegado, o jogador disse ter sido chamado de “negão” e “baladeiro”, e se sentiu ofendido. Os torcedores, entretanto, negam que a ofensa tenha sido de cunho racial, e de acordo com a polícia, admitem apenas a cobrança pelo futebol.
Os torcedores foram ouvidos na delegacia na presença de uma advogada que os representa. O G1 não conseguiu contato com ela.
Testemunha
Segundo uma testemunha ouvida pelo Globoesporte.com, os torcedores perguntaram: "E aí, negão? Vai fazer gol ou não?". O advogado do Palmeiras, André Sica, acrescentou que o trio afirmou que Love é um "negão baladeiro". Eles ainda prenderam a porta do carro, o impedindo de sair do local, segundo o relato.
Ainda de acordo com a testemunha, que não quis se identificar, o jogador, então, chamou os torcedores para a briga e trocou socos e pontapés com eles. Um vigilante da agência ouvido pela reportagem contou que o trio entrou em um carro preto e ameaçou o jogador de morte: "Vamos voltar e te pegar na bala".
O trio estava sem camisa, o que, segundo o assessor Bertazzi, foi um artifício para dificultar sua identificação. Eles rasgaram a camisa e o calção do jogador. Além disso, eles afirmaram que Love é um dos responsáveis pela perda do título do Campeonato Brasileiro deste ano.
Apesar da briga, Vagner Love foi direto para o centro de treinamento do Palmeiras.
Ao Globoesporte.com o jogador disse que os torcedores "tentaram [agredir], mas não aconteceu nada demais. Amanhã [quarta-feira], eu falo", resumiu o atacante.
Cobranças
O delegado alerta para o perigo de comportamentos do tipo, quando os torcedores passam a cobrar fora de campo um baixo rendimento dentro dele. “Eles atacaram o Vagner porque o Palmeiras estaria, para eles, fora da disputa pelo título, e ele [o jogador] seria um dos culpados”, afirmou.
“Esse comportamento de torcidas é muito perigoso, pode acarretar conseqüências imprevisíveis. Não aconteceu nada grave, mas poderia ter acontecido. Não pode refletir fora de campo o que acontece em campo, principalmente com a aproximação da Copa do Mundo”, disse Franco.
Outro caso
Em 2005, outro caso envolvendo futebol e racismo foi parar na delegacia em São Paulo. Durante uma partida entre São Paulo e Quilmes, time da Argentina, pela Libertadores, o então jogador do São Paulo Grafite acusou o argentino Desábato de tê-lo xingado utilizando termos racistas.
O caso aconteceu no dia 13 de abril. No fim da partida, Desábato foi preso ainda em campo no estádio do Morumbi, e levado para o 34º Distrito Policial, de onde só saiu após pagar fiança. Grafite chegou a procurar um advogado para entrar com ação por danos morais, mas desistiu disso e também de assinar a queixa-crime, que formalizaria a abertura de um processo.