Mesmo antes de extrair as primeiras gotas do petróleo das gigantescas reservas estimadas no litoral brasileiro, o pré-sal já provoca movimento unânime na indústria: os dividendos da riqueza têm que servir de alavanca para agregar valor ao produto nacional, tanto na mão de obra quanto na infraestrutura. Protagonista das descobertas no pré-sal, a Petrobras, através de Almir Barbassa, diretor financeiro e de Relações com os Investidores da estatal, revelou que iniciou consultas a bancos brasileiros para a concessão de crédito a fornecedores do setor de petróleo no Brasil. O anúncio foi feito segunda-feira durante o seminário O pré-sal e a indústria brasileira, promovido pelo Jornal do Brasil, com apoio da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan).

– É uma cadeia que necessita de capital intensivo. Quanto mais longos os contratos, mais fácil de serem feitos. A Petrobras quer transferir essa capacidade de financiamento. Por isso, estamos trabalhando na capitalização que está no Congresso, mas acredito que até o primeiro semestre de 2010 isso esteja concluído – disse Barbassa.

José Lima de Andrade Neto, presidente da BR Distribuidora, subsidiária da estatal do petróleo brasileiro, defendeu o novo marco regulatório e disse acreditar que as reservas de petróleo sejam ainda maiores.

A confiança da Petrobras serve de otimismo para Sérgio Leal, secretário-executivo do Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval). Ele disse que o Fundo de Marinha Mercante (FMM) aprovará novos projetos para construções de estaleiros no país, em investimentos que chegam a R$ 14,2 bilhões. Para ele, à medida que os programas do pré-sal estiverem definidos “serão três, quatro anos pela frente para saber o tamanho do desafio”.

– Outra questão importante da qual vamos depender para o crescimento diz respeito à escolaridade no Brasil. A indústria naval se espalhou pelo país e a mão de obra precisa aparecer – disse Leal, lembrando que se o país não estava nem entre os 20 primeiros do mundo na carteira de petroleiros há 10 anos, agora já figura na quinta colocação.

Leal também fez uma ressalva quanto aos empregos que vão surgir no ramo:

– O ideal é que a mão de obra seja local. Não queremos que sejam importados trabalhadores de outros estados – disse ele, lembrando que o estado do Rio tem quase metade (22 mil) dos 46 mil empregos do setor, sendo 11 mil apenas em Niterói, cidade fluminense.

O diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), Nelson Ninin, lembrou o potencial de crescimento com os investimentos bilionários estimados pelo pré-sal. Segundo ele, de 162 mil empregos do ramo, 51 mil estão associados a empresas de petróleo e gás. Ele calculou que, com a estimativa de R$ 170 bilhões investidos no pré-sal, os empregos terão 30% de acréscimo na indústria elétrica e eletrônica. Para isso, Ninin também foi enfático em defender a proteção da cadeia nacional, ante as investidas de empresas estrangeiras.

– Defendo que na Argentina trabalhem os argentinos, no Peru, os peruanos. Precisamos realmente comprar a tecnologia aqui dentro e fazer com que esses projetos saiam do papel e tenham valor alto real de nacionalização – afirmou, revelando um déficit de 10% no setor em relação a 2008.