Na próxima quinta-feira, começará nos tribunais de Buenos Aires o julgamento de 19 ex-militares envolvidos em violações dos direitos humanos cometidas na Escola de Mecânica da Marinha (Esma, na sigla em espanhol), principal centro clandestino de torturas da última ditadura militar argentina (1976-1983). A lista de acusados inclui o ex-capitão da Marinha Alfredo Astiz, conhecido como Anjo Louro, uma das figuras mais sinistras do regime militar argentino. De acordo com reportagem da correspondente Janaína Figueiredo publicada neste domingo no jornal O Globo, pela primeira vez desde a anulação das Leis de Obediência Devida e Ponto Final (as chamadas leis do perdão), em 2005, Astiz, atualmente detido na prisão de Marcos Paz, localizada na província de Buenos Aires, deverá sentar-se no banco dos réus.

O ex-capitão da Marinha foi condenado no histórico julgamento dos militares realizado pouco depois da redemocratização do país, em 1983. No entanto, como muitos outros ex-repressores, Astiz foi anistiado pelas leis do perdão, aprovadas durante o governo do presidente Raúl Alfonsín (1983-1989), em meio a fortes pressões das Forças Armadas. Nos últimos anos, o ex-militar foi acusado e processado em vários casos de crimes da ditadura, mas este será seu primeiro julgamento na Argentina (Astiz foi condenado em tribunais franceses pelo sequestro e desaparecimento das freiras Alice Domom e Léonie Duquet) desde a década de 1980.

Para organizações de defesa dos direitos humanos, o julgamento que começará na próxima quinta-feira é emblemático, já que o caso envolve o sequestro e assassinato de 85 pessoas, entre elas o escritor e jornalista Rodolfo Walsh e o chamado grupo de Santa Cruz (12 pessoas, entre elas integrantes das Mães da Praça de Maio, que se reuniam na Igreja de Santa Cruz, no centro portenho), além das duas freiras francesas.

Segundo a advogada Carolina Varksy, do Centro de Estudos Legais e Sociais, que participa do processo como parte da acusação, "o mais importante é que a Justiça argentina continue avançando, porque muitos acusados estão morrendo e muitos familiares das vítimas também".

O primeiro julgamento sobre crimes ocorridos na Esma, realizado em 2007, foi interrompido de forma inesperada pela morte do ex-chefe da Guarda Marinha, Héctor Febrés, cujo corpo foi encontrado na sede daquela Arma na província de Buenos Aires. Segundo informações divulgadas na época, Febrés foi envenenado com cianureto, veneno que teria lhe provocado uma parada cardíaca fatal.