Por Goretti Brandão
Em se tratando das artes plásticas, o que é considerado arte contemporânea e o que não é? Por que a pinacoteca da UFAL, na antiga reitoria, lá na praça Sinimbu, só expõe trabalhos que são considerados contemporâneos? Do ponto de vista da produção artística, o que significa produzir esse tipo de arte? Quem determina o que é ou o que não é e sob que premissas? (Os historiadores afirmam que Napoleão Bonaparte é nosso contemporâneo). O que dizer de quem não se enquadra no gênero? De quem não quer expressar seus sentimentos a partir desses conceitos de contemporaneidade artística?
Pergunto-me se esses conceitos para a arte, partem de mais uma das tais elites humanas e, paradoxalmente, acabam excluindo certos artistas que não se incluem nesses perfis, ou se deverá refletiir arte, sobretudo, do homem, do artista, esse que vive em tempos de modernidade, neoliberalismo e coisa e tal. Ou seja, o homem é produto da arte ou a arte é produto do homem? Arte aqui passa a ter um sentido e direção diferentes. Ela parece abandonar a sua própria verve, seu ventre embrionário da criatividade e toma um rumo que se sobrepõe à natureza da sua criação. A arte ganha limites, grades, adequações e perde terreno quando aponta como contemporâneo certa representação do espontâneo que foge ao real.
O artista é livre para produzir arte, mas o seu lugar no mundo do que é definido como arte contemporânea, pode determinar que a sua produção não sirva a esse tempo, a essa representação pictórica, às exigências de um conceito no qual caiba, ironicamente, o que é considerado relevante e o que não é. É como se dissessem ao artista: Olhe aqui, você está fora do que é moderno. A sua criação não nos diz nada. Não condiz com essa realidade. É caduca! Como assim? Caduca! Os sentimentos, impressões e outras formas de expressão da contemporaneidade estão encurralados, sob esses preceitos e pontos de vista.
A essas alturas, o conto de Hans Christian Andersen, A roupa nova do rei, cabe muito bem aqui. Ora, o medo de não ser inteligente, de estar aquém da atualidade, do entendimento da arte contemporânea, faz muita gente, a pretexto de ser aceito nos grupos considerados o lócus da intelectualidade, engolir sem pestanejar, os conceitos sobre o belo, o bom, enfim, o contemporâneo, impostos através da sutil ditadura de um pseudo-conhecimento que deixa fora a sensatez e o pensamento crítico às coisas postas. Afirmar em tempos atuais que não se entende uma dessa obras, modernas, é revelar a própria ignorância. Diante dos outros negamos o nosso próprio juízo de gosto.
Os resultados da criatividade plástica, ou qualquer outra expressão dela, (figurativa, geométrica, etc.) nem sempre redundam em uma obra de arte. Também é verdade que nem tudo o que é considerado contemporâneo é bom. Existe muita coisa ruim passando por boa e muita coisa boa, sendo menosprezada. É preciso que a parte ingênua de nós, sufocada pela máscara que usamos para sermos aceitos pelos outros, venha à tona e assim como a criança do conto de Andersen, tenhamos a sensatez de dizer, para o que deve ser dito, que “o rei está nu”.