Por Goretti Brandão
Dom João Orleans e Bragança, bisneto do último imperador do Brasil, D. Pedro II, pareceu-me um homem centrado e sério. Eu o vi pelas fotos que um amigo postou em seu álbum, no conhecido orkut e que registra a sua passagem pelas cidades alagoanas ribeirinhas, Pão de Açúcar, Piranhas, Penedo e Piaçabuçu. Pouco se divulgou sobre a sua vinda. Estivéssemos ainda vivendo sob a monarquia, certamente, a efusividade seria maior e a mídia garantiria a cobertura de cada passo do bisneto-real. A cada instante, a imagem do soberano apareceria na televisão.
A expedição através do Velho Chico deve tê-lo impressionado. Belíssimas paisagens de águas ora azuis, ora verdes, acontecidas debaixo de um céu claríssimo de começo de verão. Dom João, no entanto, manteve-se, numa sequência de registros imagéticos, com um certo ar de austeridade cansada. Meio ausente, talvez. Seria mesmo o cansaço? Seria timidez ou a polidez herdada dos seus antepassados imperiais? A cada cidade, o séquito de políticos aumentava, placas eram descerradas. Acompanhado pelo governador do Estado de Alagoas, Teotônio Vilela e o secretário de Cultura, Osvaldo Viégas, o bisneto de D. Pedro II, viu com os seus olhos, o que seu bisavô havia visto no século XIX.
Em setembro de 1859, segundo registros, o imperador anunciou a sua viagem "para melhor conhecer as províncias do meu império". Pão de Açúcar, minha terra natal, era a Vila do Pão de Açúcar e fazia parte do roteiro da expedição imperial. Sua chegada à vila deu-se em 13 de outubro. Na ocasião, ele relata em seus escritos: (...) "Receberam-me com muito entusiasmo e um anjinho entregou-me a chave da vila. (...)". Não precisa dizer nada sobre a comitiva que o acompanhava e aquelas que o receberam, de cidade a cidade visitada.
A sensação que se tem, olhando as fotos, é que, por onde andou, o ilustre descendente da memória dos tempos do imperador, vislumbrou - excetuando as mudanças nos locais e nas paisagens -, e foi acolhido, por um mesmo séquito, agora, de prefeitos, vereadores, deputados, àquela mesma enfadonha demonstração de cordialidade afetada, meio mascarada, meio forjada... Dom João subiu em palanques, postou-se diante de microfones e falou aos filhos do Velho Chico. À sua passagem por Pão de Açúcar, uma casa que fora construída no ano de 1854 e que serviu para hospedar o imperador, foi doada à comunidade pelo seu proprietário. Bela atitude! Bravo!
Tombado pelo Patrimônio Histórico ou apenas doada ao município?
Há pouco mais de três anos, quem pode entrar no local, conhecido como a Casa da Rua da Frente, viu suas paredes e o teto quase todo "tombado". Se tudo não passar de espetáculo, talvez possamos concretizar o sonho de vê-la reconstruída, vindo a servir como Casa de Cultura, Museu, um local para que a arte seja vivenciada, cultivada, vivificada. Pão de Açúcar, assim como a maioria das cidades de Alagoas, trabalha contra a sua própria história. Mata aos poucos suas referências e a sua memória. É uma pena!
Dom João Orleans e Bragança, notei, apoiava no piso do palanque o seu pé esquerdo, de um modo completamente descontraído. Seria um problema ortopédico? Caso não fosse, acho que ali o bisneto do imperador deixava escapar, da sua postura austera de herdeiro de um trono distante e morto do nosso último monarca, o cansaço às formalidades, à aparência, à verborragia das palavras enfeitadas dos políticos usuários da sua imagem, dos apertos de mão convencionais. D. Pedro II queria conhecer as províncias do seu império. A João, O Dom Orleans e Bragança, restou refazer os caminhos do imperador. Tomara que tenha valido a pena!

Dom João Orleans e Bragança em Piaçabuçu - Foto: Elson Madureira