Única pessoa no mundo a ser campeã quatro vezes de Copa do Mundo. Único brasileiro também a ser campeão do mundo como jogador e como técnico. Essas são duas características de Mário Jorge Lobo Zagallo, um dos maiores entendedores de futebol do mundo. Atualmente sem trabalhar, o Velho Lobo não deixa de acompanhar o esporte que fez parte de toda a sua vida, mesmo tendo mudado tanto a maneira de jogar, segundo o próprio. Para ele, o futebol já foi mais “gostoso de se ver”.

 Zagallo fala sobre a crise do futebol carioca, por onde trabalhou nos quatro grandes clubes, comenta sobre a volta de Ronaldo para o futebol brasileiro, o trabalho de Romário no América e ainda aponta o São Paulo como o melhor clube do país.

D – Qual é a maior diferença do futebol atual para o do passado? Antigamente era menos violento?

Zagallo – A diferença do futebol do passado para o de hoje é muito grande, porque na época em que eu joguei havia mais espaço para se jogar, a técnica superava a parte física. Então o jogador aparecia muito mais pelo próprio espaço em campo. Coisa que hoje diminuiu devido a parte física, que superou a técnica. Existia mais qualidade e quantidade técnica. Você podia jogar mais a vontade, dava tempo para raciocinar e hoje o futebol ficou congestionado. O do passado era mais bonito de se ver, tinham mais quantidades de talentos do que hoje, porque, de fato, o futebol hoje ficou muita física em cima da técnica. Na minha época era gostoso ver futebol, não que hoje não tenham bons jogos.

JD – Tem algum time que você consegue ver esse futebol do passado?

Zagallo – Você vê alguns, dependendo é claro. Porque os jogadores se adaptaram a essa condição de jogo e a gente vê vários jogos de bom nível, mas, como eu falei, quando tem mais espaço para jogar é muito mais fácil. Os times hoje jogam de uma maneira muito defensiva. A preocupação é mais defender do que ser ofensivo, o que no passado nessa situação se jogava melhor. Tivemos um Internacional e Corinthians recentemente que foi um jogaço, mas não acontece toda hora.

JD – Por que o futebol carioca está tão inferior ao paulista?

Zagallo – O problema é que as equipes, por exemplo, as menores de São Paulo, tem uma condição técnica melhor do que o próprio futebol carioca. Fazendo uma comparação: quando uma equipe grande do Rio entra num Campeonato Brasileiro, vai encontrar essa dificuldade enfrentando os menores de São Paulo. Então aquele de maior capacidade técnica, como Palmeiras, São Paulo e Corinthians, são equipes que tem um poder econômico maior do que as do Rio. Existe uma dificuldade de contratações, você não consegue ter uma equipe melhor e isso traz transtornos.

JD – Existe algum clube que teve vontade de trabalhar, mas não trabalhou?

Zagallo – No Rio trabalhei em todos os grandes. Fora do Rio uma equipe que me dá prazer em ver é a do São Paulo pela maneira deles procederem com seus dirigentes. Tem o pé no chão. Tem uma administração muito grande e nunca vi nenhum jogador do São Paulo falar que na parte financeira deixaram de ganhar. Isso mostra o que a direção do clube representa para seus atletas. Como time vem demonstrando esse sucesso todo. Recentemente nas mãos de Muricy foi três vezes campeão. Agora, com o Ricardo Gomes, vem fazendo uma campanha que tem condições de conquistar o título.

JD – O Ronaldo está te surpreendendo?

Zagallo – Ele é um cara fora de série. Ele já superou na vida contusões das mais difíceis e duas vezes deu a volta por cima. Nesse retorno para o futebol brasileiro quando o Corinthians acreditou no Ronaldo, eu acho que fizeram certo. O Ronaldo vem jogando bem. Ele está de fato com uma idade maior, o que dificulta numa convocação para a Seleção, mas ele vem se superando.

JD – Acha que o Romário vai conseguir salvar o América?

Zagallo – Ele quer fazer uma homenagem ao pai. Ele está com 43 anos, não vem fazendo trabalho físico, mas pelo que eu senti, dentro do América, que ele está mais como dirigente do que como jogador, é mais para fazer uma homenagem ao pai que era América doente. Isso está fazendo ele recordar o que o pai gostaria de o ver fazendo.

JD - Tem algo na sua carreira que faria de novo?

Zagallo – Graças a Deus estou satisfeito com tudo o que aconteceu na minha vida esportiva. Como jogador e técnico atingi uma situação muito boa, ganhando nos clubes que passei como jogador e técnico. Mas ficou na minha garganta a fase das Olimpíadas em que nós ganhamos sobre o meu comando uma medalha de bronze, quando eu queria a de ouro, mas não consegui. Nessa parte eu não consegui o sucesso, mas que também ninguém no Brasil ainda conseguiu.

JD – Por que é tão difícil ganhar a medalha de ouro nos Jogos?

Zagallo – Antigamente era mais na parte do amadorismo e as equipes adversárias que iam jogar eram de maior idade, mais tarimbada e os brasileiros iam com os juvenis para participar. Depois sim, tivemos condições de ganhar uma medalha, mas não conseguimos. Mas o motivo de não ter conseguido uma medalha de ouro é difícil de explicar.

JD – Qual é o seu maior orgulho?

Zagallo – Meu maior orgulho foi ter vestido a amarelinha como jogador, que tive a felicidade de ser campeão do mundo em 58 e 62 e na minha própria vida como técnico, quando conquistei o tricampeonato, que foi o marco naquela época e depois cheguei ao tetra como coordenador, quando trabalhei com o Parreira. Acho que a minha vida dentro da Seleção Brasileira foi de grande importância particularmente para mim, mas também creio que foi para o Brasil.