São Paulo tem mais de mil imóveis interditados por irregularidades na construção. É o resultado da ocupação desordenada da cidade que avançou sobre áreas alagadas. A geologia da cidade foi desrespeitada. Em várias regiões, o solo não consegue sustentar os imóveis. E as consequências do problema surgem, geralmente, logo após longos períodos de chuva.

 

A casa da advogada Rosângela Martinelli foi interditada. Parte da construção desabou. “Aqui é uma região de declive acentuado. O que mais preocupa é chuva”, diz. O sobrado da aposentada Lucília Navarro tem quase 40 anos e há cinco está afundando. Ela tem que se segurar nas paredes para não cair. “Muito triste levantar todos os dias e ver que a casa está cedendo. Tem dias que olho e começo chorar”, afirma.

Para os engenheiros, casos como esses podem ser resultados da falta de conhecimento do terreno da cidade. São Paulo tem pelo menos 10 tipos de solos. E, por ironia, as áreas mais procuradas são as antigas várzeas, que ficam próximas aos Rios Pinheiros e Tietê.

Uma área que mais parece pântano é, na verdade, um dos terrenos mais valorizados de São Paulo. No local, será construído um prédio de 25 andares. Por enquanto, o que se vê são escavações sobre uma argila mole e, mais à frente, a água do lençol freático. O solo nessas áreas é como uma esponja. Em grandes fundações, o lençol freático é desviado. E, onde era água, fica o vazio.

“Engenheiro faz papel semelhante ao do médico. Antes da operação, realiza vários exames e, mesmo assim, durante ela pode encontrar surpresa”, afirma o engenheiro civil Décio Ferreira Pedrosa. Na região da obra, por exemplo, são sete metros de argila. O prédio vai ser construído sobre estacas de concreto. Tudo cuidadosamente estudado.

Em regiões como essa, além de pensar na própria obra, as construtoras não podem se esquecer da vizinhança. Para o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), a solução seria uma legislação específica para esses terrenos. “Identificar nas regiões da cidade onde isso acontece, mapear as regiões para, especificamente nelas, serem elaboradas leis que podem evitar problemas no futuro”, diz o pesquisador José Maria Barros.