A arbitragem alagoana foi massacrada em todo o país após o erro de Charles Hebert, validando um gol de mão. A CBF decidiu afastá-lo por 90 dias, para a realização de uma reciclagem. Mesmo assim ele foi julgado no STJD e poderia ter pego 600 dias de suspensão.

Mas, os relatores, por unanimidade, absolveram o alagoano. Historicamente, no mundo futebol, muitos casos de gol de mão foram registrados, mas nenhum deles foi tão incisivo em tentar culpar a integridade do árbitro como este de Welinton, do Paraná. Inocentado pela entidade máxima judicial do futebol, Charles falou pela primeira vez, com exclusividade, e desabafou toda verdade sobre a polêmica que o afastou dos gramados.

Tribuna Independente - Como você viu o lance? Descreva.

Charles Hebert - Foi na cobrança de um tiro de canto. A bola veio no primeiro poste da meta, onde dois jogadores foram em direção para disputar a mesma. No que olhei para a disputa, a bola passou rapidamente e depois olhei para frente e já vi o jogador se movimentando após o toque na bola. Tudo muito rápido. Do ângulo que estava, apesar de não ter ninguém à frente, ele me encobriu com seu corpo e cabeça.

T.I. - O que aconteceu quando a bola entrou?

Charles Hebert - Somente o goleiro e dois jogadores vieram em minha direção de imediato, dizendo que tinha sido com a mão. Eu perguntei, de quem? Pensei que eles estariam falando de um toque de um dos dois jogadores que foram para disputa no primeiro poste da meta, que não aconteceu, e nunca do que teria feito o gol, pois para mim teria sido com a cabeça. Quando eu disse que não tinha visto mão alguma, eles foram todos em direção a Ticiana.

T.I. - Quando e como você viu a Ticiana?

Charles Hebert - Quando a bola entra no gol, a primeira coisa que olhamos é o assistente, para ver se o mesmo validou o gol, com o procedimento Fifa de correr em direção ao meio do campo, e ela fez isso, só que nessa corrida até o meio já foi interceptada pelos jogadores, onde neste momento levantou a bandeira para me chamar.

T.I. - Qual foi sua conversa com ela?

Charles Hebert - Quase não teve conversa. Os jogadores todos em cima, só perguntei se tinha havido algo. Ela só me pediu para retirar os jogadores que estavam rodeando ela e reclamando que não tinha visto nada de anormal também.

T.I. - O que os jogadores disseram?

Charles Hebert - Eles ficavam dizendo que o gol foi com a mão, e perguntando se ela não tinha visto; a mesma pergunta faziam a ela, foi quando consegui retirar os mesmos para dar reinício à partida.

T.I. - A que horas você soube que o gol foi de mão?

Charles Hebert - Só tive a certeza quando vi na internet (vídeo), logo após o final do jogo, quando estávamos fazendo a súmula nos vestiários. Pois no intervalo, o 4º árbitro me disse que na hora consultou alguns membros da imprensa que estavam na pista e os mesmos estavam na dúvida, mas depois os que estavam em cima nas cabines, ao decorrer do 2º tempo, disseram aos repórteres de baixo que o gol teria sido com a mão, que repassou para o mesmo, que só veio me dizer ao final da partida.

T.I. - Como você se sentiu com essa notícia?

Charles Hebert - Muito triste e decepcionado. Ao longo de quase 10 anos de carreira, nunca tinha acontecido fato igual. Nunca tinha errado daquela forma. Ficava me perguntando, como não vi aquela mão? E da forma que saiu nos noticiários, a mão de todos os ângulos era grotesca, aí fiquei mais triste ainda, pois não mostraram em um ângulo por trás de mim, que poderia explicar o porque do erro, mesmo não tendo ninguém à minha frente. É muito triste saber que com seu erro uma equipe foi prejudicada. Estaríamos ali para legitimar o resultado e não para prejudicar ninguém, e também estávamos num excelente ano. Aquele fora meu 8º jogo pela CBF este ano. Nunca tínhamos participando tanto. Sabíamos que com o acontecimento, interromperíamos nosso trabalho e também apagaríamos o resultado positivo dos jogos anteriores, pois vida de árbitro é assim, só lembram da gente quando erramos. É o mais triste. Quando erramos, muitos julgam como se não fosse um erro, e, sim, como uma premeditação. Para muitos, os árbitros são os únicos que não erram por errar. Todos os outros (jogadores, técnicos, dirigente, imprensa, etc.) têm direito, só não o árbitro. Muito triste tudo isso.

T.I. - Como foi sua saída do estádio?

Charles Hebert - Pensei que seria complicada, mas graças a Deus e com apoio da PM do Ceará saímos sem problemas.

T.I. - Como você reagiu à repercussão e polêmica?

Charles Hebert - Com muita tristeza, principalmente por algo divulgado por todos os meios de comunicação, que não aconteceu. A estória seria que a Ticiana teria me chamado para anular o gol, que teria visto a irregularidade, e eu não teria aceitado essa informação, o que tornaria o erro muito mais grave, pois além de ter errado em não ter visto, ainda teria sido arrogante e estúpido de não ter aceitado, quebrando um princípio básico da arbitragem, que é o trabalho em equipe, criando toda essa polêmica nacional.

T.I. - Quem lhe apoiou e quem lhe deu as costas?

Charles Hebert - Prefiro só falar nos que me apoiaram, e ainda estão me apoiando. Agradeço o apoio e força da FAF, nas pessoas do presidente Gustavo Feijó, e toda sua diretoria; da Ceaf (Hércules e Alton); de todos os meus companheiros e amigos de arbitragem, e fora dela. Nunca imaginaria tanto apoio. Vários amigos me ligaram do Brasil inteiro. Até mesmo do exterior recebi ligações. Não poderia deixar de agradecer a toda a imprensa do nosso Estado, onde a maioria nos deu apoio e incentivo para continuar na luta neste momento tão difícil. Agradeço também ao ex-árbitro Fifa do Ceará, Dacildo Mourão, componente de rádio e TV de lá, que nos defendeu veementemente, chegando a mostrar em seu programa fotos exclusivas do lance por trás, onde mostra que o jogador realmente me encobriu, indo de encontro a toda crítica do seu Estado e do país. E a minha família, que me vem dando sustento para aguentar tudo isso. A estes, só me resta agradecer por tudo, e dizer-lhes que continuarei na luta, justamente por essa força que tenho recebido.

T.I. - Como ficou sua vida após isso?

Charles Hebert - Apesar de tudo, estou levando minha vida normalmente. Só não está normal no âmbito da arbitragem, pois nunca me afastei tanto tempo dela. Agora serão 3 meses que estarei fora dos gramados. O STJD foi justo e serei somente apenado pelo erro que cometi, e não pelo sensacionalismo criado pela mídia numa estória que não foi verdade. É muito fácil chutar cachorro morto.

T.I. - Você pensou em desistir?

Charles Hebert - Tenho que confessar, algumas vezes já pensei em desistir, e essa foi uma delas. Às vezes perguntamos para nós mesmos o que estamos fazendo ali, principalmente nos momentos adversos, iguais a este, pois nunca fui tão crucificado por um erro. Mas, quando paramos e pensamos em tudo que passamos e construímos para chegarmos aonde chegamos, voltamos atrás, principalmente pelo apoio e incentivo recebido de vá- rias pessoas que reconhecem nosso difícil trabalho, o que nos dá forças para continuar nossa luta, até quando Deus permitir.

T.I. - O que você espera da sua carreira como árbitro?

Charles Hebert - A gente sempre espera o melhor possível, mas, às vezes, acontecem coisas inesperadas, que nos deparamos e temos que enfrentar. Sei que dei uma interrompida na sequência do meu trabalho, mas sempre fui um lutador, nunca desisti de lutar. Já venci mais do que perdi, então continuarei trabalhando e tenho certeza que com a força de Deus me reerguerei em 2010, onde me espelharei em vários atletas que passaram por situações complicadas, conseguiram retornar, e voltaram a ser campeões.

T.I - Deixe uma mensagem aos jovens árbitros!

Charles Hebert - Sempre digo aos meus alunos da Escola Alagoana de Arbitragem de Futebol, e até mesmo a outros árbitros: "A arbitragem é uma atividade muito ingrata. Só entramos e estamos nela porque realmente gostamos e amamos. Ser árbitro de futebol é igual a ser um controlador de voo, qualquer erro pode se transformar numa tragédia e por isso vivemos sempre no limite, lidando sempre com a emoção das pessoas. Diante disso, temos que estar sempre nos preparando, pois, preparados, conseguiremos enfrentar todos os desafios e também estaremos preparados para as adversidades que a carreira nos propicia".