Por Goretti Brandão

O inverno foi embora. O homem do campo, morador do sertão, festejou as chuvas que caíram este ano até setembro. A paisagem verde da caatinga alagoana se encolhe à presença dos primeiros raios de sol. É hora de vestir a roupagem ocre, terra siena queimada e intensos marrons. Hora de poeira, da evaporação das águas das barragens. É a vez dos arbustos espinhosos e das pedras, antes escondidas sob a vegetação exuberante, retornam elas ao cenário, pontiagudas e escaldantes ao meio-dia. Mas é sob o signo do sol que a beleza imagética do semi-árido desenha iluminuras em grandes amplitudes.

Folhagens das caatingueiras forram o chão e margeiam os caminhos sinuosos do silêncio da estiagem. É de dentro dele que os pássaros cortam o mormaço, com seus vôos e alaridos lamuriosos. O silêncio tem o canto das aves, o mugido dos bois, o cacarejar das galinhas. Galhos secos e quebradiços estalam à passagem de qualquer vivente. É nesse mundo onde um microcosmo viceja paciente e anônimo. Pequenas flores desabrocham, num quase destempero desfiador ao tempo escasso de águas. São elas que resguardam a lembrança de que mesmo na adversidade a vida encontra um jeito de acontecer.

Porém a contemplação dessa beleza necessita ser buscada. Surge espontânea, é verdade, está ali, mas se deixa guardar debaixo da vastidão das cores obscurecidas do tempo de verão. Sutis, apresentam a quem as buscam, uma multiplicidade de cores, de formas, de luzes e de vibração impressionantes. São variadas: flores da batata brava, flores do pinhão roxo, flores e flores campestres, minúsculas, em sua maioria, que enchem os olhos e o coração de quem as encontra. A essa visão me ocorre lembrar da realidade oposta. Vejo Graciliano Ramos, em seu maravilhoso romance Vidas Secas. Das personagens marcantes, do destino de retirantes, da cachorra Baleia.

O universo visível do sofrimento humano, a extensa aridez do semi-árido esconde, por certo, a força da vida lutando eternamente para continuar existindo. Daí, vou até a dramática obra de arte de Portinari: Retirantes. Comovente. É tudo tão verdadeiro. Tudo tão grotesco e por isso mesmo, tão profundamente gravado na memória de nossa alma. Através da arte, e graças a Deus, tanta dor é exposta, denunciada, tornada mais visível. Confronta-nos à interminável razão de sermos filhos do clima áspero da caatinga do nordeste brasileiro. O jardim a que me refiro também é denúncia, porque nasce sobre a secura da terra, apesar do sofrimento que nos aflige, e reclama a beleza e o respeito à vida, mesmo em tempo de calor e necessidade.

Homem e natureza refletem a mesma dinâmica da esperança. Brota em ambos, de onde menos se espera, as pequenas flores escondidas, como reparação à naturalidade com que sentimos as coisas (injustiças, fome...), com as quais, infelizmente, parece que acostumamos a conviver.

Flor do Pinhão Roxo