O governo interino de Honduras anunciou que encerrará nesta quinta-feira o toque de recolher imposto desde segunda-feira (21), com a volta do presidente deposto Manuel Zelaya, que continua refugiado na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa e pressionando por um diálogo direto por uma solução à crise. O fim da medida chega após um dia de manifestações, confrontos e longas filas e correria aos supermercados e lojas da capital, que ficaram com prateleiras vazias após a suspensão temporária do toque de recolher.

Apesar do dia de tensão e distúrbios, a crise continuou sem avanços nesta quarta-feira na questão política e diplomática. A comunidade internacional tentará mediar o processo com o envio de uma missão de embaixadores da OEA (Organização dos Estados Americanos) e da União Europeia (UE).

Zelaya qualificou de "totalmente positiva" a visita dos embaixadores. "Parece que estão realmente de acordo com a realidade que Honduras está vivendo e isso nos vai permitir colocar mais pressão interna", disse Zelaya à agência de notícias Efe.

"Eles podem ser fiéis testemunhas dos meus esforços pelo diálogo e que venham realmente comigo aqui à Embaixada do Brasil a acompanhar-me", afirmou o presidente.

O presidente está refugiado na embaixada com o apoio do governo brasileiro. De acordo com o 22º artigo da Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, de 1961, os locais das Missões Diplomáticas (embaixadas e edifícios anexos) são invioláveis. Os agentes do estado acreditado (que recebe a embaixada) não podem penetrar neles sem o consentimento do chefe da missão.

O secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, e o ministro espanhol de Relações Exteriores, Miguel Ángel Moratinos, anunciaram nesta quarta-feira a decisão do retorno dos embaixadores e o envio de uma missão de chanceleres americanos a Tegucigalpa para iniciar uma mesa de negociação que dê saída à crise.

Todos decidiram atender o pedido do governo constitucional hondurenho, que pediu o retorno dos embaixadores uma vez que Zelaya se encontra de novo no país, com o objetivo de apoiar "no terreno" essa mesa de diálogo.

Zelaya acrescentou que os embaixadores podem, também, "manifestar que não reconhecem o regime" de Roberto Micheletti e "que o presidente está prisioneiro em uma embaixada rodeado por militares".

"Venho falar de diálogo mas não me deixam falar, não me deixam comunicar-me, reprimem ao povo e me rodeiam para que não fale com ninguém, me parece que não há nenhuma intenção de diálogo de parte dos golpistas", afirmou o presidente deposto, ao assinalar que os militares impediram a passagem de familiares seus.

Zelaya evitou especular sobre o tempo que se manterá na Embaixada nem sobre outros cenários possíveis, e não revelou se movimentará rumo a outra sede diplomática na capital hondurenha, como se especulou nas últimas horas.

Ele mantém, contudo, a pressão por diálogo direto com o governo interino, proposta a qual Micheletti vinculou o reconhecimento das eleições marcadas para 29 de novembro.

"Este é o objetivo [da volta a Honduras], dialogar de forma pessoal, não somente com ele [Micheletti], mas também com grupos econômicos do país, com grupos políticos que têm interesse em participar das eleições", disse o presidente à France Presse.

Toque de recolher

"O toque de recolher se suspende a partir das 6h [9h no horário de Brasília], pelo que os empregados dos setores público e privado poderão voltar a seus trabalhos normais", indicou o porta-voz presidencial, René Zepeda, à imprensa local.

A medida esvaziou a capital e deixou escolas, empresas, aeroportos e fronteiras fechados nos últimos dias.

Milhares de hondurenhos aproveitaram ainda o período de alívio nas restrições para participar de uma passeata em Tegucigalpa exigindo a restituição de Zelaya. A passeata que, segundo os dirigentes da Frente Nacional de Resistência contra o Golpe de Estado, tinha pelo menos dois quilômetros, saiu da Universidade Pedagógica, a leste da capital, e se dirigiu rumo à sede das Nações Unidas, no centro da cidade.

O líder da Resistência, Rafael Alegría, assegurou que os participantes da caminhada eram, basicamente, moradores de Tegucigalpa, já que não houve possibilidade de mobilizar pessoas do interior do país, devido ao toque de recolher e as fronteiras fechadas.

Membros da polícia e do Exército reagiram com gás lacrimogêneo e balas de borracha à manifestação. Segundo testemunhas, no lugar podem ser encontradas cápsulas de munição de armas de fogo dos efetivos policiais e militares.

A polícia disse que prendeu 113 pessoas depois que dezenas de empresas foram saqueados quando os manifestantes entraram em choque com policiais na noite desta terça-feira. Ao menos uma pessoa morreu nos protestos.