Por Goretti Brandão

Os olhos de ver são diferentes dos olhos de enxergar. O primeiro simplesmente vê. O olho de ver muitas vezes apenas capta as imagens. O de enxergar vai mais adiante. Perpassa a imagem até mesmo do signo, nela representado, a partir de uma realidade simulada. A gente vê com os olhos e enxerga a partir do olhar. O olhar é mais introjetado, mais livre do órgão da visão, pura e simplesmente, porque requer não apenas o que se apreende da informação do objeto, mas o conhecimento que dá a esse objeto algo que lhe nomeie e lhe dê um valor real.

Andando pelo comércio, observo os camelôs e suas bugigangas espalhados em cada esquina ou rua do centro de Maceió, e troco a visão das coisas, pelo olhar às coisas. A profusão de cores e formas pode alcançar qualquer um. Levo sempre em conta que a produção humana é cultura. Daí, dessa premissa, todo o espaço percorrido evidencia a beleza dessa produção. Para isso abandono a visão nada romântica do comércio e da mercadoria, acontecendo ali, com suas regras e lógicas persuasivas e destinadas a atrair consumidores, e distanciando-me das engrenagens do consumir, o que vejo são homens, mulheres e crianças, sendo protagonistas de cenas cotidianas, coloridas e dinâmicas em uma belíssima obra de arte.

Apesar de vivermos na era da estética da mercadoria e sob o signo da inconsciência, da irracionalidade e da mercadorização, pode ser possível ainda, para alguns, extrair do simulacro da realidade, através do olhar, e não do olho, a essência do que está posto - dourado e fetichizado, como produto de consumo - enxergando nas ruas do comércio, a criatividade humana  mesmo que destituída de sua aura artística.