Ônibus e veículos incendiados, pedradas, rojões, balas de borracha e bombas de efeito moral. Cenas como essa têm se tornado cada vez mais comuns em conflitos nas comunidades carentes de São Paulo. Na maioria das vezes, o estopim da violência é a morte ou a prisão de algum morador por parte da polícia. Os argumentos dos dois lados são padronizados. Enquanto as forças de segurança argumentam resistência à prisão, moradores denunciam abuso policial nas abordagens.
"Esse é um problema estrutural, de como a polícia lida com as comunidades mais pobres. É inegável que houve um avanço nos últimos anos, mas ainda há muitos problemas. Existe um esforço grande de melhoria da ação policial, de uso da força não letal. Mas ouvimos relatos de abusos no cotidiano", diz Carolina Ricardo, coordenadora da área de gestão local da Segurança Pública do Instituto Sou da Paz.
Somente em 2009, foram contabilizados pelo menos sete casos com o cenário descrito acima. Também acabaram em conflito problemas como reintegração de posse, coleta de lixo precária e desocupação de residências após deslizamento de terra. Eles se repetiram em Paraisópolis, Cidade Tiradentes, Penha, Vila Jacuí, Campo Belo, Heliópolis, Brasilândia, Capão Redondo, Jaçanã, Pirituba e favela Chica Luísa.
Segundo a coordenadora do Instituto Sou da Paz, ao se analisar uma situação dessas, é preciso lembrar que os conflitos são o fim do processo. "O problema começa muito antes do conflito. Quando as pessoas vão para a rua para protestar é porque já houve uma ruptura. Os conflitos não acontecem do nada. É apenas uma amostra de que relação com as forças policiais não é boa", diz.
O ouvidor da Polícia do Estado de São Paulo, Luiz Gonzaga Dantas, diz que o protesto das comunidades tem revelado uma insatisfação com os órgãos de segurança pública do Estado. "Há casos de ações desastrosas, que intimidam a população. Poderiam ser feitas mais na ótica do limite do dever legal. A polícia não pode extrapolar nas ações que são designadas a ela", afirma.
De acordo com ele, é comum a ouvidoria receber reclamações de que policiais invadem domicílios em comunidades pobres, mesmo sem mandado de busca e apreensão. "Quando se faz isso em comunidades da periferia do Estado, ao arrepio da lei, da Constituição, isso deve ser reprovado pela população. Estamos acompanhando com preocupação todos esses casos. Acreditamos que não há uma orientação do governo nesse sentido e por isso é preciso coibir fatos delituosos, que muitas vezes são o começo de problemas maiores", diz.
Questionada na última quinta-feira sobre a apuração das responsabilidades nos conflitos, a Polícia Militar alegou que não teve tempo hábil para levantar todos os inquéritos e por isso preferiu não se manifestar. Conflito recente
Durante esta semana, a morte de uma estudante, após uma suposta troca de tiros entre guardas civis metropolitanos de São Caetano com ladrões de carro, moradores queimaram nove veículos e se insurgiram contra a Polícia Militar, que foi chamada para conter os manifestantes.
Para o comandante da Operação, Maurício de Araújo, em um caso como esse a ação da polícia é pontual, técnica, legal, porém incisiva. "Fomos ao local com o intuito de manter a ordem. Nesse tipo de situação, há muita gente interessada em desgastar a imagem da polícia e torná-la antipática à população, que é utilizada como proteção de criminosos".
A população se defendeu e afirmou que a morte da menina é mais do que suficiente para gerar protestos. Paulo Sérgio Maciel, que mora em Heliópolis há mais de 30 anos, resumiu assim o sentimento da comunidade. "É a repressão da polícia que dói. Heliópolis não tem apenas santos. Mas o que a polícia faz aqui no dia a dia incomoda qualquer cidadão honesto. É muita esculhambação".