Logo depois da primeira sessão de A erva do rato no Festival de Veneza do ano passado, o diretor Júlio Bressane foi fazer uma boquinha numa cantina próxima à sala de exibição. Ainda não havia começado o lanche quando o veterano do cinema poético foi abordado por Jean-Pierre Varret, da Les Films Du Paradoxe, distribuidora francesa especializada em títulos pequenos, de cunho autoral, que desejava comprar os direitos do filme para a Europa. Foi o interesse pelo poder da narrativa do longa-metragem protagonizado por Selton Mello e Alessandra Negrini que garantiu o lançamento comercial da produção na França em 6 de junho, meses antes de ela arrancar um lugar no circuito brasileiro.
– Eles costumam lançar dois ou três filmes por ano, em um circuito que abrange cerca de 300 cidades da França. Como A erva do rato ainda não tinha distribuidor no Brasil, Varret agendou a exibição em três festivais por lá e fez mostras de meus trabalhos em cidades como Paris e Nantes. Fiquei surpreso: fui muito bem recebido por parte da crítica, e mal por outra, mas isso não impediu a circulação do meu filme, o que não acontece no nosso país – lembra Bressane, que lança o novo trabalho na sexta-feira, depois de esperar por uma folga na apertada agenda de estreias do verão americano.
Numa época em que as cifras milionárias de comédias como Se eu fosse você 2 e A mulher invisível viraram parâmetro de sucesso de bilheteria, as chances de um filme de perfil experimental viraram vítimas do que o autor de Matou a família e foi ao cinema (1969) chama de distorção do mercado nacional. A erva do rato é vagamente inspirado em elementos de dois contos de Machado de Assis (1839-1908) e é descrito pelo realizador carioca como “uma tentativa de sugestão, por intermédio de imagens, do estilo do escritor”.
– Nossa economia não está sofisticada o suficiente para abrigar uma produção cultural mais fragmentada. Aqui o alvo é a massa, é tudo ou nada, não há segmentos de público – analisa o diretor de 63 anos, cuja trajetória se entrelaça com o cinema marginal dos anos 60 e 70. – A era do rato não tem a pretensão de virar a bilheteria da atividade cinematográfica brasileira e nem pode contar com a adesão desse tipo de filme. Mas isso não quer dizer que não haja público para um filme como este.
O novo filme de Bressane inicia carreira no momento em que o mercado festeja os 10,5 milhões de ingressos vendidos pelo cinema nacional no primeiro semestre, que corresponde a um crescimento de 167% em relação ao mesmo período em 2008. Mais da metade desse total pertence ao borderô de Se eu fosse você, comédia romântica dirigida por Daniel Filho e estrelada por Tony Ramos e Glória Pires, que acumula 5,8 milhões de pagantes. Apesar de contar com um elenco global, Cleópatra, o filme anterior de Bressane, com Miguel Falabella e Alessandra Negrini, premiado no Festival de Brasília de 2007, “não fez 25 mil espectadores”, como informa o diretor. Bressane relativiza o sucesso de tais produtos de perfil popular:
– Estamos vivendo uma impostura. Todo esse suposto sucesso não é bem assim. Os filmes que conseguem 2 milhões de espectadores mal conseguem cobrir os gastos de lançamento. Pior, não têm nenhum valor social. Mas, por causa dessa euforia do retorno imediato, os produtos mais elaborados entram quando dá; e mesmo assim ficam pouco tempo em cartaz. É uma situação triste – comenta. – Hoje, os filmes não estão em questão, o que importa é saber se você está filiado a essa ou aquela posição política. Ou você faz parte de um determinado ponto de vista ou está excluído do mercado.
A Les Films Du Paradoxe soube identificar valores na produção inspirado em breves passagens de textos do autor de Dom Casmurro, A causa secreta e Um esqueleto. Na versão imaginada por Bressane, um homem e uma mulher sem nome se conhecem em um cemitério, vão morar sob o mesmo teto e iniciam uma série de rituais curiosos. Num primeiro momento, ela copia os textos que ele dita em cadernos que vão se amontoando pelos cantos da casa. Mais adiante, ele a convence a posar nua para fotos. Entra em cena um rato, que começa a roer os ensaios fotográficos do casal, fato que desperta ansiedade nele e uma cumplicidade por parte dela.
O filme, que tem fotografia do craque Walter Carvalho, bebe em referências dos pintores franceses Édouard Manet (1932-1883) e Jean-Baptiste-Siméon Chardin (1699-1779). A erva do rato marca a segunda incursão de Bressane na obra do escritor. Em 1985, o diretor lançou Brás Cubas, versão de Memórias póstumas de Brás Cubas (1881).
– Foi uma experiência pioneira, que se propunha a fazer tradução de um livro para um filme em um nível intersemiótico. A erva do rato, ao contrário, não é uma adaptação literal, mas uma espécie de tributo a Machado a partir de dois contos dele – compara. – Do primeiro, tirei a questão da convivência do homem com o esqueleto e do segundo extraí o tema do horror ao rato, e construí uma ficção em torno deles.
Enquanto acompanha o desempenho da nova cria nas salas, Bressane já prepara a próxima. O beduíno (título provisório) pretende analisar a adaptação de linguagens de vanguarda, como o dadaísmo, o surrealismo, o cubismo e o impressionaismo, ao país.
– Todos esses ismos chegaram aqui sob uma rubrica: o modernismo. Todas as novidades de imagem, de som, essas conquistas que já fizeram 100 anos e foram criadas na corrente cultural europeia, ainda são vistas como exóticas entre nós – diz. – O beduíno é sobre esse conflito, a partir do ponto de vista do cotidiano de um casal no dias de hoje