O Ministério Público do Rio Grande do Sul anunciou nesta segunda-feira (17) que vai investigar se houve conduta criminosa por parte de pastores da Igreja Universal durante campanhas de arrecadação de doações. A Promotoria também quer analisar o destino dado às doações.
“A conduta, aparentemente, ela se insere como um
crime de estelionato, ou seja, que é a obtenção de uma vantagem
ilícita prometendo alguma coisa que não pode ser entregue. Não
se confunde liberdade de culto com a prática diuturna de um
crime. Não há de se confundir você escolher a fé que você
professa com alguém estar praticando estelionato contra os seus
fiéis. Isso que nós vamos analisar”, afirmou o promotor Ricardo
Herbstrith.
Na semana passada, a Justiça de São Paulo abriu
ação penal contra Edir Macedo,líder e fundador da Igreja
Universal, e mais nove pessoas ligadas a ele por formação de
quadrilha e lavagem de dinheiro. Eles são acusados de desviar
dinheiro de doações de fiéis para fins particulares e
comerciais.
Doações a qualquer igreja não são consideradas
ilegais. O MP de SP apontou na denúncia, no entanto, que alguns
líderes da Igreja Universal se beneficiaram da imunidade
tributária para desviar o dinheiro. Segundo a Constituição, é
proibida a cobrança de impostos a "tempos de qualquer culto".
O MP do Rio Grande do Sul quer investigar imagens divulgadas sobre o ritual chamado “Fogueira Santa", cerimônia que acontece duas vezes por ano. Em gravações feitas há três anos com uma câmera escondida, os fiéis são chamados a doar tudo o que têm.
“Você vai apresentar o teu sacrifício que é de R$
100 mil, que é de R$ 50 mil, de 30, de 20 ou de R$ 10 mil.
Consciente”, diz um pastor.
“Vou vender o meu apartamento, e eu vou vender o
meu carro que eu tenho e vou colocar no altar. Se o senhor
perguntar pra mim o que vai sobrar, eu não sei, porque não vai
sobrar mais nada. De bens, eu não vou ter mais nada. E nem
valores, porque o meu salário, tudo, eu vou colocar no altar”,
diz um pastor nas gravações.
No altar, há até documento de transferência de
bens. “Sobe aqui no altar, já preenche o documento do seu carro,
do seu automóvel, já deixa preenchido, em nome de Jesus”, diz um pastor.
Um comerciante diz que foi induzido a fazer
doações e entrou na Justiça para reaver R$ 11 mil que havia
entregue à Igreja Universal. Os julgadores entenderam que houve
coação moral no pedido do pastor.De acordo com o desembargador
Romeu Marques Ribeiro, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do
Sul, há “coação velada”. “De certa forma há uma coação velada,
porque aquele que não doa, que não presta o dízimo, se sente
numa situação de inferioridade. A pessoa que está ao meu lado
doando vai receber em dobro, eu não vou doar, não vou receber
nada. Então é uma coação indireta.”
Processo de SP
A Igreja Universal do Reino de Deus divulgou nota
na noite dessa segunda-feira em que afirma ter entrado com
pedido de abertura de sindicância contra os promotores do Grupo
de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do estado de
São Paulo, responsáveis pela denúncia contra dez de seus
representantes, encaminhada à Justiça.
Segundo a igreja, o pedido se baseia em denúncias sobre a conduta
de alguns promotores.
A Procuradoria Geral da Justiça de São Paulo
também divulgou nota em que acusa a TV Record de distorcer
informações relativas ao processo criminal contra Edir Macedo e
outros nove integrantes da igreja. A emissora acusou os
promotores de falta de isenção.
A nota da procuradoria diz que a distribuição da
denúncia recebida pelo juiz Glaucio Roberto Brittes, da nona
Vara Criminal de São Paulo, foi feita de acordo com os trâmites
legais.
A Procuradoria reafirma que deposita irrestrita
confiança no trabalho do grupo e que o Ministério Público
estadual continuará exercendo o seu papel constitucional.
O Tribunal de Justiça de São Paulo também divulgou nota de esclarecimento, em que declara que não houve irregularidades na distribuição do processo.