A realidade crua interessa cada vez menos a Hector Babenco. Desde 1981, o realismo exacerbado de Pixote – A lei do mais fraco foi progressivamente dando lugar, filme após filme, a uma abordagem mais onírica do mundo. Voltado para sua própria tormenta de memórias em suas últimas produções, como Coração iluminado e O passado, o cineasta argentino naturalizado brasileiro afirma que sequer acompanha o noticiário. A transformação pode ser acompanhada em todas as suas fases a partir do dia 18, de terça à sexta, sempre às 22h, na mostra dedicada à sua obra no Canal Brasil. Na seleção, oito longas-metragens, além de quatro documentários inéditos que trazem os bastidores de obras que rodaram o mundo como O beijo da mulher-aranha, Brincando nos campos do Senhor e Carandiru.

– A minha indignação perante a realidade foi ficando pálida – comenta Babenco, que confessa dedicar pouco tempo ao veículo que vai transmitir boa parte de sua obra. – O sentimento deu lugar a uma vontade de utilizar a situação do país para brincar com ela. Não posso dizer que levo essa indignação menos a sério, mas sim que a manipulo de forma mais lúdica.

A interiorização do cineasta atingirá seu ponto mais alto em seu próximo filme, Cidade maravilhosa, que deve se passar inteiramente no Rio e ainda está sendo roteirizado. A mutação estética, porém, vai na contramão da sociedade brasileira que, segundo ele, está cada vez mais preso à sua achatada realidade.

– É uma transformação e só minha – diz. – O país está cada dia mais real. A merda mais parecida com a merda. Como dizem os americanos, “What you see is what you get”, o que se vê é o que se recebe. Não há dupla leitura. Por isso, nem leio mais jornais. Não me interesso por notícias. Não estou querendo bancar o tal, simplesmente tenho medo de ficar infectado.

Mesmo assim, Babenco não deixa de acompanhar – e apreciar – a atual produção do país.

– Continuo a ir ao cinema com frequência. A produção brasileira continua eclética, como sempre foi. Gosto de Karim Aïnouz, Beto Brant, Claúdio Torres e da evolução do Heitor Dhalia. Acho que Daniel Filho é um mestre do entretenimento. Mas acredito que esta enxurrada de filmes precisam ainda mostrar a que vieram. Há produções demais no Brasil. Tudo bem que a grande quantidade favorece a pluralidade, mas por que tantos filmes de R$ 3 milhões? Isso faz aumentar a espera para se fazer um longa. Por causa deste pedágio, é preciso esperar dois anos para poder filmar seu roteiro.

O cineasta, porém, faz questão de elogiar os atuais mecanismos

de proteção.

– A Ancine está fazendo um ótimo trabalho. O Brasil é o único país latino-americano com leis de proteção. A gestão anterior parece uma ditadura comparada com a de Manoel Rangel, que é muito mais libertária.

Os documentários apresentados na mostra de Babenco revelam detalhes importantes sobre quatro dos oito filmes selecionados. Pixote in memoriam, de Felipe Briso e Gilberto Topczewski, investiga os bastidores e a escolha do elenco do longa lançado em 1981, que se notabilizou por misturar nomes consagrados como Marília Pêra com atores não-profissionais, cujas vidas eram parecidas com as de seus personagens (método do qual Babenco se gaba de ter posto em prática antes do cineasta britânico Mike Leigh). Muito do êxito do longa, indicado ao Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, se deve a presença do menino de rua Fernando Ramos da Silva no papel principal. Considerado ator revelação, teve uma trajetória trágica. Depois de não conseguir o mesmo sucesso no cinema e na TV, voltou à marginalidade em Diadema até ser assassinado por policiais em 1987, aos 19 anos. Sua participação marcante inspirou outras obras, como o longa Quem matou Pixote?, de José Joffily, de 1996.

– Qual era a necessidade de Quem matou Pixote?. Não revela nenhuma novidade e ainda mostra uma nova mãe do personagem, que parece ter saído de novela da Globo, nada a ver com a sua mãe real – critica Babenco, que deu permissão a Joffily para fazer o filme.