Localizada no Alto Sertão de Alagoas, a cidade de Delmiro Gouveia, distante cerca de 300 km da Capital, Maceió, tem se revelado como uma cidade onde diariamente chegam pessoas procedentes de vários estados brasileiros.
Esse fato leva a polícia a aumentar a fiscalização em ônibus e outros meios de transportes que trazem visitantes e até mesmo novos moradores.
Considerada cidade pólo do alto sertão, Delmiro Gouveia, também é vista pelas autoridades das polícias Civil e Militar, como um ponto chave, devido a sua situação geográfica, que faz fronteira com os Estados da Bahia, Sergipe e Pernambuco, para a entrada de quadrilhas organizadas responsáveis pelo tráfico de drogas, roubos e desmanche de carros, além de pistoleiros foragidos de outros estados e se favorecem das precárias condições de segurança nas cidades.
E é esta insegurança, que tem amedrontado a população de oito municípios que fazem parte da área de atuação do 9º Batalhão da Polícia Militar, que conta com apenas 190 policiais, todos comandados pelo coronel Osman Vilela Araújo.
O próprio coronel relaciona as cidades de: Mata Grande, Inhapi, Canapi, Piranhas e a cidade onde é localizado o Batalhão, Delmiro Gouveia, como as mais violentas por servirem principalmente como rota de acesso e fugas das quadrilhas. (Confira no gráfico)
Há nove meses no comando do Batalhão, o coronel constatou que não havia anteriormente uma ação de repressão as quadrilhas e aos pistoleiros que atuam na região.
“ Todos os colegas que passaram pelo comando do 9º Batalhão, apesar de serem homens de conduta ilibada, temiam serem mortos a mando dos traficantes e por isso deixavam o medo dominá-los na corporação”, desabafou o oficial por telefone, com exclusividade ao Cadaminuto.
O coronel preocupado com as estatísticas da violência na região passou a atuar de forma diferente de seus antecessores, “ferindo” as quadrilhas instaladas nos municípios do sertão.
E foi com essa mudança, que surpreendeu a população, que o comandante Osman Vilela começou ser vítima de ameaças dos chefes de quadrilhas, que passaram também ameaçar a família do oficial. Ele confirmou para o Cadaminuto o temor de ser executado junto com a mulher a qualquer momento.
O oficial disse que as ameaças são feitas através de cartas anônimas e de telefonemas dados diretamente para ele, pelo celular e o telefone do Batalhão.
“As ligações estão sendo rastreadas pelo Serviço de Inteligência da PM e da Polícia Federal – PF, que tem levantado informações que vão possibilitar as prisões de todos os envolvidos”, disse o Coronel.
Segundo ele, após as primeiras ameaças, relatou o fato ao comandante da Polícia Militar do Estado, que determinou quatro policiais do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), para fazer sua segurança pessoal e da mulher.
O casal, atualmente reside em Delmiro Gouveia e devido às ameaças, foram obrigados a mudarem o estilo de vida. Enquanto o marido está no Batalhão, ela não sai às ruas e evita receber até os familiares e amigos, passando a maior parte do tempo orando em casa.
“Ela não sai. Está presa dentro da própria casa onde mora. Algumas vezes, vai até a igreja com o marido, acompanhados de policiais fortemente armados e lá saem antes do culto se encerrar. Todos nos temos pena deles e oramos para que essa violência acabe”, desabafou uma amiga do casal que temendo represálias pediu para não ter o nome revelado.
O coronel e a esposa são evangélicos e até para freqüentarem os cultos são obrigados a usarem coletes aprova de bala, se prevenindo contra a morte anunciada.
“Toda hora uso colete, minha esposa também. Mesmo para participar dos cultos na igreja não abro mão dos coletes, dos seguranças que me acompanham e de duas pistolas que ficam comigo até na hora do banho ”, lembrou ele.
Nas ações, o coronel tem priorizado junto com seus policiais e as poucas condições de trabalho, o combate ao tráfico de drogas e as quadrilhas especializadas em roubos e desmanche de carros vindos principalmente no Sul do país e que chegam a Alagoas através de cidades sertanejas, sendo comercializados com documentos falsos a preços abaixo do mercado.
“Durante o nosso trabalho, já conseguimos notificar cerca de cinco mil veículos que trafegavam irregularmente pela região e recolhemos vários carros oriundos de “estouro” e motos com documentações alienadas. Com isso começamos a desorganizar as quadrilhas que roubavam carros em São Paulo para comercializarem com preços fora da realidade”, falou Osman.
Rota do tráfico no sertão
O oficial revelou que as quadrilhas se utilizam de estradas vicinais para fugirem das ações da polícia. Osman Vilela disse ainda que tem contado com o apoio dos comandantes de batalhões da PM dos Estados de Sergipe, Pernambuco e da Bahia, que juntos com os policiais a seu comando têm reprimido a onda de violência, com prisões dos acusados.
Por outro lado ele confirmou as precárias condições as quais as cidades estão entregues na questão segurança pública. Um dos exemplos é Mata Grande, cidade com cerca de 26 mil habitantes, com três agências bancarias e que conta apenas com 3 policiais para fazer a segurança do município.
Já o comandante da Polícia Militar de Alagoas, Coronel Dalmo Sena, revelou em entrevista ao Cadaminuto que sabe o risco de vida que o oficial e a família dele estão passando. “Não podemos deixar nenhum policial sem segurança, principalmente quando estão sendo ameaçados por bandidos. Tudo isso que ele (Coronel Osman Vilela), está passando é devido a um bom trabalho que esta sendo realizado na área do 9º Batalhão em Delmiro. Reconheço que falta efetivo policial, mas não é por isso que podemos deixar a segurança enfraquecer”, contou Sena
O comandante da PM/AL disponibilizou o helicóptero da Defesa Social para as ações policiais do 9º Batalhão. “A aeronave está a disposição a qualquer hora que o coronel solicitar, seja pelo dia ou a noite e se for preciso deslocamos mais homens para aquela região”, confirmou Dalmo Sena.
Já o Secretário de Defesa Social de Alagoas, Paulo Rubim garantiu mais viaturas para o sertão. “Nós reconhecemos a falta de estrutura nas delegacias, mas não podemos deixar assim. Vamos enviar mais viaturas e policiais para as cidades mais críticas nos próximos dias”, garantiu Rubim.
Mesmo enfrentando todas as dificuldades, entre elas as ameaças de morte, o coronel Osman Vilela, garantiu que continuará a combater o tráfico de drogas e os constantes roubos de carros e motos, além das ameaçadas de pistoleiros que tem chegado às cidades do Sertão contratados para assassinatos.
“Quando eu entrei na polícia fiz o juramento para garantir a segurança da população, mesmo colocando em risco minha vida. Vou continuar realizando as operações na região”, finalizou o oficial.