O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, afirmou nesta sexta-feira que o presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, seu mais novo aliado na região, regressará nas próximas horas ao país.
O possível retorno de Zelaya, que foi deposto da presidência em 28 de junho em um golpe perpetrado por Exército, Suprema Corte e Congresso, desafiaria as repetidas advertências feitas pelo governo interino. O presidente interino, Roberto Micheletti, afirmou que Zelaya só volta ao país se for diretamente aos tribunais ou mesmo à prisão.
"Zelaya disse que nas próximas horas entra em Honduras, pois nós estamos com Zelaya, é preciso apoiá-lo", disse Chávez a jornalistas ao entrar no Palácio Governamental em La Paz, para reunir-se com o colega boliviano Evo Morales. Segundo Chávez, eles discutirão a crise em Honduras.
"Já verão os gorilas o que vão fazer, lá existe um povo [que] tem bloqueadas quase todas as estradas, o país está paralisado, é um país ingovernável", disse Chávez, que adotou um tom duro contra o governo interino em apoio a Zelaya.
O venezuelano voltou a insultar os novos governantes de Honduras, liderados por Micheletti, e os qualificou de "usurpadores", "máfia capaz de qualquer coisa" e "assaltantes de estrada".
"Vito Corleone, o poderoso chefão, (...) Al Capone são crianças de colo se comprados a "gorileti" e seus bandidos que têm que ser varridos pelo povo de Honduras e varridos pela história, porque não podemos voltar atrás", declarou Chávez.
O presidente venezuelano também disse que a chanceler de Zelaya, Patricia Rodas, saiu esta madrugada de La Paz rumo a Manágua, onde, no domingo, serão comemorados os 30 anos da revolução sandinista, evento ao que disse não ser seguro assistir.
Chávez e Patricia chegaram juntos na quarta-feira a La Paz, para participar da celebração dos 200 anos da revolução de La Paz contra o domínio colonial espanhol.
Chávez emprestou o avião Falcón a Zelaya em sua primeira tentativa de retornar ao país depois do golpe. O governo interino, contudo, impediu sua chegada lotando a pista do aeroporto de Tegucigalpa com veículos e militares. Neste dia, os confrontos entre polícia e manifestantes pró-Zelaya deixaram ao menos dois mortos --vítimas pelas quais o governo interino culpa os manifestantes já que defende que a polícia não deu nenhum tiro.
Negociação
Delegações de Zelaya e Micheletti voltarão a se reunir neste sábado para discutir a crise política no país com mediação do líder costarriquenho, Oscar Arias.
Após lançar um ultimato e pedir a insurreição de seus seguidores nos últimos dias, Zelaya deixou, nesta quinta-feira à noite, a porta aberta da "esperança" em resolver o impasse criado com o golpe que o tirou do poder em 28 de junho.
Apenas enviados dos dois lados devem comparecer à reunião marcada por Arias para ocorrer em San José.
"Há todavia uma esperança, uma porta aberta. Não devemos perder a fé e esta esperança se acaba em 48 horas", explicou, contraditório, o presidente deposto, em uma entrevista ao canal de televisão oficial da Venezuela VTV.
Zelaya tem dito que pretende voltar a Honduras de qualquer maneira se, neste fim de semana, não se chegar a nenhuma solução negociada.
Para Micheletti, a solução para a crise não passa pelo regresso de Zelaya ao poder, como exige a comunidade internacional.
O governante de facto assegurou inclusive que estaria disposto a renunciar, com a condição de que o presidente deposto não volte a ocupar o cargo.
Mediação
Arias planeja propor "várias ideias" aos negociadores de ambos os lados, entre elas, um "governo de reconciliação nacional" e a anistia dos delitos políticos que a Justiça hondurenha acusa Zelaya de ter cometido.
Em troca, o presidente deposto teria que renunciar a seu projeto de convocar um referendo para reformar a Constituição do país --apontada como a causa da crise política que causou o golpe.
Apesar de alguns sinais positivos que foram enviados, a expectativa é de que as conversações sejam difíceis.
"Não aceitamos que nenhum país nos imponha absolutamente nada. Temos uma posição e estaremos firmes, não mudaremos de maneira nenhuma", disse Micheletti.
No entanto, à medida que se aproximam as negociações na Costa Rica, a pressão sobre o governo interino feita por seguidores e amigos de Zelaya aumentou tanto em Honduras quanto fora do país.