Por discordar da indicação do senador Antonio Carlos Valadares (PSB-SE) para presidir o Conselho de Ética que irá investigar as denúncias contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), o líder do PMDB, senador Renan Calheiros (PMDB-AP), em novo atrito com o líder do PT, Aloizio Mercadante (PT-SP), boicotou a abertura da primeira sessão, nesta terça, que elegeria o novo presidente
De qualquer forma, a composição do colegiado, aprovado por 54 votos a 3, mostra que houve a preocupação de blindar Sarney
Com a eleição dos integrantes do Conselho, já seria possível indicar o relator das representações contra Sarney. Seria o primeiro passo para aprovar, no Conselho de Ética, uma proposta de afastamento do presidente do Senado do cargo, como estabelece projeto de resolução aprovado no ano passado
No lugar de Valadares, indicado pelo PT, Renan e Sarney querem pôr na presidência o senador Paulo Duque (PMDB-RJ), que, por ser suplente, sofreria menos cobranças da opinião pública. Revoltada com a manobra, a oposição avisa que não deixará votar a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e, consequentemente, o início do recesso parlamentar previsto para sexta-feira. Nesta quarta, haverá nova tentativa de votação da LDO.
- Querem pizza antes de começar o Conselho? Não querem o Valadares porque ele é mais isento. Botam o Duque lá porque ele é engraçado? Mas se o governo está pensando em votar alguma coisa, pode tirar o cavalinho da chuva. Sem conselho e sem investigação do Sarney, não votamos nada e o Congresso não entre em recesso. Pressão de lá, pressão de cá - disse o senador Demóstenes Torres (DEM-GO).
- Vou me orientar pela oposição. Só voto a LDO depois de instalado o Conselho - apoiou Renato Casagrande (PSB-ES).
Sarney participou das articulações para blindar o Conselho, mas de longe. Nesta terça, não foi ao plenário.
Mérito das denúncias só será discutido em agosto
Mesmo que a oposição consiga pressionar, e o Conselho seja instalado nesta quarta, ou até sexta-feira, só em agosto será discutido o mérito das três denúncias encaminhadas em caráter pessoal pelo líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM), e de uma representação do PSOL. Instalado o Conselho e eleito o presidente, ele sorteará o relator da representação, sobre os atos secretos.
O relator pode decidir em cinco dias úteis se a representação é ou não procedente. Das três denúncias de Virgílio, duas devem ser arquivadas, pois tratam de fatos anteriores ao mandato de Sarney na presidência da Casa - desvio de recursos da Petrobras na Fundação José Sarney e atos secretos. Mas a terceira denúncia encaminhada nesta terça, que sustenta que Sarney mentiu ao se excluir de responsabilidade nos atos da administração da Fundação, pode ser considerada procedente.