Do passado ao futuro. O Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, no Rio, não quer ser sinônimo pejorativo de museu – como depósito de objetos antigos. A instituição está realizando um interessante projeto que vai culminar na criação do Museu Nacional Virtual. Para isso, seu acervo, que reúne mais de 20 milhões de peças e representa a maior coleção de história natural, antropologia e paleontologia da América do Sul, está sendo digitalizado.

Esqueletos de dinossauros, fósseis de mamíferos extintos como o tigre-dentes-de-sabre e múmias egípcias adquiridas na época do Império estão sendo digitalizadas por uma combinação de tecnologias. A mais recente delas utiliza um escaner portátil que capta os objetos em imagens tridimensionais.

Estas imagens são lançados num banco de dados que está sendo criado e que, no futuro, poderá ser acessado pela internet por pesquisadores de outras cidades do Brasil e do mundo. Mais que isso: as peças digitalizadas, de um esqueleto de dinossauro por exemplo, podem dar origem a réplicas em variadas escalas.

– A vantagem destas réplicas, para o pesquisador, é poder manusear a peça sem causar danos nos objetos originais – diz o coordenador do projeto e egiptólogo do Museu Nacional Antonio Brancaglion.

A digitalização das peças permite ainda que se observe nuances difíceis de perceber nas peças originais. Ele cita como exemplo placas egípcias com inscrições em hieróglifos.

– Com a digitalização, podemos até ler hieróglifos que estejam parcialmente apagados – comenta.

O trabalho permite ainda restaurar objetos que estejam fragmentados. Brancaglion cita como exemplo um sarcófago egípcio da coleção. O Museu Nacional só tem metade desta peça. A outra parte está numa instituição francesa. A gente pode enviar o modelo digitalizado para montarem virtualmente a peça – comenta.

A digitalização do acervo está começando pelas coleções de peças egípcias e paleontológicas (dinossauros, fósseis de animais). Uma primeira etapa consistiu em fazer tomografias computadorizadas de múmias do Egito Antigo e de fósseis, realizadas em clínicas médicas.

Esta primeira etapa permitiu fazer uma varredura nas múmias e uma projeção de várias camadas: ossos, tecidos corporais, indumentária e adornos. O escaner completa o registro virtual portátil fazendo a leitura tridimensional da peça.

– Queremos colocar no museu, ao lado de um sarcófago de múmia, por exemplo, um terminal de computador, onde o visitante possa ver estes detalhes internos das múmias e assim ter uma visão muito mais completa da peça – diz.

Este tipo de exposição será utilizado em outras coleções, como a dos dinossauros, tornando muito mais rica a visitação ao museu.

Neste projeto, o Museu Nacional faz parceria com outras instituições: o Instituto Nacional de Tecnologia (INT) e a Fundação Oswaldo Cruz. O INT tem equipamentos para fazer as réplicas em material plástico de um crânio de múmia, por exemplo. E a Fiocruz, através de trabalho da pesquisadora Sheila Mendonça, faz a reconstituição facial da múmia usando massas e utilizando parâmetros científicos que estimam a idade e as condições da pele.

– Com isso, vamos poder expor como seria o rosto da múmia – comenta Brancaglion.

O trabalho todo de digitalização vai levar um bom tempo, admite o pesquisador. Afinal, são milhões de peças que compõem o acervo do museu. Das 700 peças da coleção egípcia, por exemplo, foram digitalizadas apenas dez.

Outros trabalhos são menos complexos. O escaneamento do esqueleto do tigre-dentes-de-sabre durou uma hora.

– O grande objetivo deste trabalho é incrementar e a aprofundar a difusão da informação científica. Além disso, temos peças guardadas, sem local para exposição. Este material vai poder ser visto em projeções virtuais em computadores – diz.