Uma audiência para ouvir testemunhas, nesta terça-feira, 30, na 2ª Vara do Júri, volta a trazer à tona o caso do assassinato do empresário do antigo Bar Quixabeira (Barris), Joel Lobo. O acusado, Jurandir Bispo, amigo e colega de trabalho da vítima, foi preso em 2007 e hoje responde em liberdade. Ocorrido em 2004, o crime é exemplo da violência contra homossexuais, ainda em prática na Bahia – o segundo pior Estado dentro desta perspectiva.
Neste domingo, 28, na data em que se comemoram os 40 anos do marco da resistência homossexual, a partir da batalha travada entre gays e policiais no bar Stonewall Inn, em Nova York (EUA), a intolerância é considerada alta e as mudanças lentas. “Hoje, 40 anos desde Stonewall, os gays continuam no armário, não se assumem. O Estado não dá direitos legais e a sociedade não está nem aí; acham que somos indivíduos de segunda categoria”, diz o presidente do Grupo Gay da Bahia (GGB), Marcelo Cerqueira.
O preconceito aliado à falta de políticas públicas é o que estaria contribuindo para a perpetuação da violência. De acordo com um relatório anual publicado pelo GGB, a Bahia registrou 25 assassinatos contra homossexuais em 2008, a mesma média alcançada em todos Estados Unidos, no período. A posição de Estado brasileiro mais violento ficou com Pernambuco (27 casos), sendo que um gay nordestino corre 84% mais risco de ser morto do que no Sudeste ou no Sul.
HOMOFOBIA – De acordo com a delegada Rosimar Malafaia, que investiga mortes de homossexuais na Delegacia de Homicídios, existe uma série de fatores que leva a esse tipo de crime. “Na maior parte dos casos, é o próprio parceiro quem mata a vítima, no interior da residência dela. Em geral, por desentendimento por dinheiro, arrependimento e nojo de si mesmo ou por ciúme”, sinaliza Rosimar, elencando elementos comuns de
homofobia.
Amigo próximo que acompanhou o processo da morte de Joel, o professor Cléber Nascimento lamenta ter de conviver com essa realidade, que já o fez mudar a rotina, optando por uma vida mais contida. “O assassinato de Joel, assim como uma sequência de outros casos, me deixou amedrontado e me fez pensar que a gente vive vulnerável. Infelizmente, não caminhamos para a frente. Um caso de homofobia não recebe a mesma atenção que é dada a outras ocorrências”, desabafa.
AÇÕES - Um Núcleo de Direitos Humanos Especializado no Combate à Homofobia, com equipe interdisciplinar para atender vítimas. Essa é a proposta anunciada pela Secretaria da Justiça, Cidadania e Direitos Humanos do Estado (SJCDH), a ser implementada até o final do ano. Além de um núcleo em Salvador, outros dois estão previstos para Feira de Santana e Vitória da Conquista.
“De fato, tem aumentado muito a violência contra o homossexual, notadamente na região de Feira”, observa a coordenadora de promoção da cidadania, Márcia Misi. Ela informa que um grupo intersetorial de trabalho executivo está formado, com representantes de secretarias e entidades civis, para discutir e implementar propostas voltadas para a população gay.
Apesar das propostas, o presidente do GGB, Marcelo Cerqueira, reclama ainda não ter visto ações concretas, desde a realização da 1ª Conferência de Direitos do Grupo LGBT, em abril do ano passado. “A secretaria deveria ser mais enérgica. Até hoje, não criou uma política pública especial. O que falta mesmo é vontade política”, critica.
Para ele, uma boa iniciativa seria a criação de uma delegacia especializada no atendimento a homossexuais, que serviria para apurar casos de discriminação, calúnia e difamação, além de crimes mais graves. “A impunidade é alta. São casos difíceis de serem resolvidos, até mesmo porque as famílias não costumam ter interesse em resolver. Pelo aspecto sexual, quanto mais rápido esquecer, melhor”, afirma.
Luta contra homofobia completa 40 anos
28/06/2009, 03:04 - Brasil/Mundo
Por eduardocardeal
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