O fim da exigência do diploma de jornalismo, determinado pelo
Supremo Tribunal Federal (STF), não deve afastar os alunos do
curso nem provocar tão cedo mudanças nos currículos e no mercado
de trabalho.
A avaliação é de professores e coordenadores de alguns dos
principais cursos de jornalismo do país. Por outro lado, eles
apostam na oferta de mais pós-graduações na área justamente para
atender às pessoas com outras formações.
“É
possível que caia [a procura], algumas pessoas são atraídas para
uma carreira porque a profissão é regulamentada, mas não parece
que será assim tão drástico”, avalia José Coelho Sobrinho,
presidente da comissão de graduação da Escola de Comunicações e
Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).
Coelho cita a procura pelo curso de publicidade e
propaganda no vestibular da Fuvest no ano passado. Segundo ele,
mesmo sem as empresas exigirem o diploma para o exercício dessa
profissão, a relação candidato/vaga ficou em 40 _maior, por
exemplo, que medicina, com 34 candidatos/vaga.
Angela Schaun, coordenadora do Centro de Pesquisa de Comunicação
e Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie, faz coro a
ele. “Acho que quem quer ser jornalista, vai procurar fazer o
curso, porque é a área com a qual se identifica.”
Tampouco a decisão do STF deve afetar o dia-a-dia nas redações do país, avaliam os especialistas: já é comum haver profissionais com formações distintas atuando no mercado.
Mercado de trabalho
Porém, para o professor da Universidade Estadual do Rio de
Janeiro (Uerj) Fábio Iório, o jornalista continuará sendo
valorizado. “A atividade de jornalismo não é tão simplória e a
qualificação superior deve ser preservada. Acredito que o
mercado vai continuar reconhecendo o trabalho do profissional
graduado em jornalismo”, diz.
“Qual empresa jornalística vai querer arriscar pegar uma pessoa
que não entenda nada de jornalismo sendo que há uma reserva de
mão-de-obra nas universidades?”, questiona Ricardo Alexino
Ferreira, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em
Bauru (SP).
David Renault, da Universidade de Brasília (UnB),
é da mesma opinião. “Não acho que as grandes empresas começarão
a recrutar profissionais para todos os lados, de todas as áreas.
Qualquer recém-formado precisa de treinamento, e uma empresa
gastará menos tempo e dinheiro se pegar um profissional que se
formou em comunicação”.
Currículo
A longo prazo, no entanto, professores avaliam que podem ocorrer
mudanças na grade curricular, mas que isso dependerá de uma
resposta do mercado. Segundo Coelho, da USP, não há previsão de
alterações no currículo da ECA. “Além de ser preciso um ano de
antecedência para qualquer mudança na grade, existem várias
tendências sobre o assunto, por isso a necessidade de
discussão.”
Ferreira, da Unesp, pondera que a não
obrigatoriedade fará com que os cursos se repensem. "Eles
se tornaram muito tecnicistas. No curso de jornalismo, o que
menos importa são os laboratórios.”
Pós-graduação
Com essa abertura para profissionais de outras áreas trabalharem
como jornalistas, as faculdades apostam em mais cursos de pós-graduação.
A Universidade Metodista, na região metropolitana de São Paulo,
por exemplo, estuda a oferta de uma especialização para um
público sem formação em jornalismo. “Estamos avaliando abrir em
2010 um curso lato sensu. A ideia é preparar o profissional em
temas que são vistos na faculdade”, afirma Rodolfo Martino,
coordenador do curso de jornalismo da Metodista.
Na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), já existem cursos de especialização em oito áreas do jornalismo. "Atualmente, as turmas de pós-graduação ainda são formadas, em sua maioria, por jornalistas. Talvez isso mude, mas só o tempo para dizer", afirma Amilton Octavio de Souza, chefe do departamento.
“O surgimento de novos cursos de pós-graduação e
mestrado é de suma importância para o jornalista não morrer
engessado”, ressalta a diretora e coordenadora da Escola de
Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO),
Ivana Bentes.