A revelação esta semana do militar Sebastião Curió Rodrigues de Moura, conhecido como major Curió sobre tortura e morte de militantes contrários a ditadura em ações feitas pelo exército brasileiro reascendeu a polêmica sobre a total abertura dos arquivos da instituição sobre o período militar.

Já no início deste mês a Procuradoria Geral da Justiça Militar encaminhou ofício ao comando do Exército solicitando informações sobre a composição e as atribuições dos oficiais do DOI-Codi de São Paulo - órgão repressor da ditadura militar- no período de 1971 a 1976.

O próprio presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, disse ontem em entrevista à imprensa que é favorável à abertura dos arquivos da ditadura, "Acho que tem de haver abertura. Não vejo nenhuma necessidade de proibição" explicou ele que disse ainda que a sociedade brasileira tem o direito de saber a verdade sobre o que ocorreu na época do regime militar.

De acordo com as Ongs Desaparecidos Políticos e Tortura Nunca Mais pelo menos 500 pessoas foram mortas ou dadas como desaparecidas durante o período da ditadura. A reportagem do Cadaminuto identificou nestes documentos o caso de cinco alagoanos.

Gastone Lúcia Beltrão nasceu em 12 de novembro de 1950 em Alagoas, filha de João de Castro Beltrão e Zoraide Carvalho Beltrão e teria sido fuzilada no dia 21 de janeiro de 1972, aos 22 anos, na Avenida Lins de Vasconcelos, Cambuci, São Paulo, pela equipe do delegado Sérgio Fleury, quando reagiu à voz de prisão.

A versão oficial do exército é que ela tenha trocado tiros com agentes mas as fotos da polícia técnica mostram que o local da morte da jovem alagoana teria sido outro.

Jaime Amorim Miranda era jornalista e militante do Partido Comunista Brasileiro. Nasceu em 18 de julho de 1926 em Maceió, Alagoas, filho de Manoel Simplício de Miranda e Hermé Amorim de Miranda. Era casado e pai de 4 filhos.

Quando tinha 49 anos foi preso no dia 4 de fevereiro de 1975 no Catumbi, Rio de Janeiro, ao sair de casa, por agentes do exército e desde este dia não mais apareceu.

Manoel Lisboa de Moura nasceu em 21 de fevereiro de 1944 em Maceió, Alagoas. Foi diretor da União dos Estudantes Secundaristas de Alagoas (UESA) e, aos 16 anos, ingressou na juventude comunista. Já em 1964, com apenas 20 anos, foi impedido de continuar seu curso de Medicina na Universidade Federal de Alagoas e teve seus direitos políticos cassados pelo governo militar.

Foi preso no dia 16 de agosto de 1973, numa praça pública situada no bairro do Rosarinho, no Recife, numa ação conjunta das polícias políticas de Pernambuco e São Paulo, comandadas pelos policiais torturadores Luís Miranda e Sérgio Paranhos Fleury. Dez dias após sua prisão, Manoel foi visto ainda com vida por outros militantes, com o corpo cheio de queimaduras e semi-paralítico. No dia 5 de setembro em nota oficial do exército foi dito que ele morreu após um tiroteio com a polícia em São Paulo.

Odijas Carvalho de Souza Líder estudantil de Agronomia da Universidade Rural de Pernambuco, natural de Alagoas.

Foi preso na Praia de Maria Farinha, no município de Paulista, em Pernambuco, no dia 30 de janeiro de 1971 . Os policiais responsáveis por sua prisão são: Edmundo de Brito, Fausto Venâncio da Silva Filho, Ivaldo Nicodemus Vieira e Severino Pereira da Silva, todos do DOPS/PE.

Foi imediatamente torturado no DOPS/Recife, onde passou uma semana.
Após esse período, foi levado às pressas para o Hospital da Polícia Militar de Pernambuco no dia 6 de fevereiro de 1971, morrendo dois dias depois em conseqüência das torturas sofridas.

O atestado de óbito, fornecido pelo IML/PE, foi assinado por Dr. Ednaldo Paz de Vasconcelos e tinha como causa-mortis embolia pulmonar. Mas na realidade, Odijas apresentava várias fraturas de ossos, ruptura de rins, baço e fígado.

Manoel Fiel Filho Nasceu aos 7 de janeiro de 1927 em Quebrangulo, Estado de Alagoas, filho de Manoel Fiel de Lima e Margarida Maria de Lima. Era operário metalúrgico, casado, e tinha dois filhos.

Foi preso no dia 16 de janeiro de 1976, às 12:00 h, por dois homens que se diziam agentes do DOI-CODI/SP, sob a acusação de pertencer ao PCB. Levado para a sede do DOI/CODI, Manoel Fiel foi torturado e, no dia seguinte, acareado com Sebastião de Almeida, preso sob a mesma acusação.

Posteriormente, os órgãos de segurança emitiram nota oficial afirmando que Manoel havia se enforcado em sua cela com as próprias meias, naquele mesmo dia 17, por volta das 13 horas.

No dia seguinte, um sábado, às 22:00h, um desconhecido, dirigindo um Dodge Dart, parou em frente à casa do operário e, diante de sua mulher, suas duas filhas e alguns parentes, disse secamente: ‘O Manoel suicidou-se. Aqui estão suas roupas.’ Em seguida, jogou na calçada um saco de lixo azul com as roupas do operário morto.

Naquela trágica noite, os parentes que foram até o lnstituto Médico Legal tentar recuperar o corpo do operário morto, sentiram-se pressionados. As autoridades só entregavam o corpo com a condição de que Fiel Filho fosse sepultado o mais rapidamente possível e que ninguém falasse nada sobre sua morte. No domingo, dia 18, às 8:00h da manhã, ele foi sepultado.

Diante das evidências, a viúva Tereza de Lourdes Martins Fiel resolve romper o silêncio e ingressar na Justiça com uma ação cível contra o Governo, requerendo indenização pela morte de seu marido.

‘Não quero dinheiro. Quero justiça!’ disse ela. Além disso, diante dos novos fatos, requereu-se à Justiça Militar que a morte de Fiel seja novamente investigada, o que está para acontecer."