As palavras hospitaleiro e hospital guardam a mesma ligação etimológica. A primeira se refere a algo ou alguém que acolhe de maneira satisfatória um hóspede ou visitante. A segunda se refere a um local para atender doentes. Hoje, o maior hospital do RN, o Walfredo Gurgel, consegue magicamente romper a ligação histórica entre as duas palavras. Não se trata de um “hospital hospitaleiro”, com o perdão do trocadilho. Com o peso de uma infinidade de problemas do sistema de saúde nas costas, o Walfredo não consegue desempenhar sua função com qualidade.
A reportagem da TN conviveu durante 24hs com pacientes e funcionários do HWG, no fim de semana passado. Na maior parte do tempo sem o conhecimento de usuários e profissionais, a reportagem conseguiu perceber, in loco, o que nem sempre fica claro, principalmente na cobertura da mídia: o Walfredo Gurgel é talvez o melhor hospital do Estado, referência em inúmeras áreas e que faz um trabalho social indispensável ao Rio Grande do Norte. Mesmo assim, a unidade não consegue satisfazer minimamente as expectativas da sociedade, da própria equipe de profissionais e do Governo do Estado. Por que?
Se fosse possível resumir as falhas de sistema que minam o trabalho do Hospital e que transformam os plantões do Walfredo em um campo de batalha, três seriam destacadas: falta de recursos humanos, superlotação e falhas no abastecimento. Os três problemas combinados levam ao Hospital uma insatisfação extrema tanto por parte de quem espera ser atendido quanto de quem realiza o serviço. Por vezes, os dois lados do balcão entram em conflitos. No fim, a população é atendida, salvo exceções. Na fila do setor de ortopedia, pacientes choram. Copiosamente. Um deles é Osair Cardoso. O jardineiro sofreu um acidente de moto e tem escoriações nas pernas, no tórax e na cabeça. O caso não é dos mais graves. Ele pode esperar. Mas não sem dor. Sua esposa, Emiliana Pinheiro tenta de tudo para diminuir o sofrimento do companheiro. Não há plantonista para aplicar outro analgésico. Emiliana discute com o enfermeiro. Por sua vez, o enfermeiro, agitado, reclama, poucos minutos depois, com o maqueiro, que, logo , se desentende com outro maqueiro.
Insatisfação toma conta dos corredores do HWG
O problema dos recursos humanos é um dos que mais compromete o funcionamento do hospital Walfredo Gurgel. Independente dos motivos que levem à falta de médicos (salários baixos, mau gerenciamento da escala e até indolência dos profissionais são os mais citados), o paciente quer ser atendido.
É bom não esquecer que tanto o acompanhante quanto o paciente que esperam na fila estão num momento de extrema fragilidade. Estão sofrendo. Dessa forma, não é de se estranhar que usuários do serviço se exasperem quando o sistema falha. E a reclamação é para o primeiro que aparece.
Tudo isso é ampliado com uma lente de aumento cruel. O Walfredo tem mais de 40% de atendimentos com pacientes que sequer são da capital. Pessoas que deveriam ter sido atendidas em um hospital regional no interior do Estado, como o Tarcísio Maia em Mossoró. O resultado do teorema é uma constante superlotação. O Walfredo Gurgel recebe hoje toda a demanda do Rio Grande do Norte e isso foi percebido de forma extrema durante a permanência da reportagem no Hospital. Das mais de 15 pessoas com que conversamos, 80% eram do interior. Campo Redondo, Santa Cruz, Tangará, Mossoró, Santana dos Matos. A presença de ambulâncias dessas cidades na frente do Hospital também não são raras. Com isso, as falhas que competem exclusivamente ao Walfredo Gurgel ganham uma dimensão ainda maior. Assim, os funcionários passam o dia e a noite ouvindo a mesma reclamação. Não tem paciência que aguente.
A equipe do Walfredo Gurgel aparenta absorver o fato de ser a porta de entrada das reclamações que na maioria das vezes não lhes compete resolver, tendo em vista que são falhas de um sistema maior, ou pela via do revide ou através da indiferença. Ou seja, alguns respondem, muitas vezes na mesma medida de grosseria que os usuários por vezes se utilizam, outros simplesmente não estão nem aí. É compreensível. Não há dúvidas de que o atendimento do Walfredo Gurgel deixa a desejar em inúmeros pontos, mas nem sempre por culpa dos funcionários. “O problema do Walfredo não é só do Walfredo. É o problema do Estado todo. É por isso que os pacientes brigam com a equipe, que trabalha sob forte tensão”, explica um enfermeiro, aprovado no último concurso da saúde, que preferiu não se identificar.
A mesma situação é relatada pelo ortopedista Rogério Nobre, que estava de plantão no último fim de semana (30/05). A pressão sobre ele chegou ao ponto de os pacientes e acompanhantes irem até o centro cirúrgico para obriga-lo a atender no pronto socorro. “Nós tivemos seis cirurgias hoje à noite e é impossível estar em dois lugares ao mesmo tempo”, diz Rogério. E complementa: “A maioria dos pacientes tem problemas que não deveriam ser atendidos aqui. São situações que podem ser resolvidas num pronto-atendimento”. Na noite do domingo (31/05), a reportagem encontrou a técnica de enfermagem Gláucia (nome fictício, a personagem não quis se identificar). Ela havia levado o filho de 21 anos para ser atendido no Walfredo Gurgel por conta de uma dor de dente. “Ele extraiu um dente e tomou um remédio indicado por um farmacêutico. Hoje, a boca dele estava inchada e o único local com atendimento é o Walfredo”, diz Gláucia.
As condições de trabalho são mais um componente que complica o funcionamento da pesada estrutura do Walfredo Gurgel. De acordo com o farmacêutico Carlos Farias, a farmácia do Hospital nunca esteve completamente abastecida. Em decorrência, é comum que faltem insumos. Durante o domingo, a reportagem percorreu os laboratórios e farmácias do Hospital e constatou a ausência de papel toalha, intracat (instrumento necessário para pulsionar veias) e lâminas e reagentes para o laboratório. Vários equipamentos estavam quebrados. Não são poucos os procedimentos que ficam muito mais difíceis, ou até mesmo inviáveis, sem alguns reagentes e eletrólitos. Quanto ao Raio-x, o funcionário Hilton Duarte contou que o equipamento vive quebrado. São falhas que nem sempre inviabilizam o atendimento, mas que contribuem para um grande desconforto.
O Walfredo Gurgel atende mensalmente 12 mil potiguares. Em todo o Estado é a principal porta de assistência à população. A vocação do Hospital é o atendimento de politrauma, vítimas de acidentes e violência urbana. Situações graves. No entanto, a equipe de 1.810 funcionários não se furta a atender todo e qualquer problema de saúde. A sindicalista Sônia Godeiro resume o paradoxo: “O Walfredo Gurgel é um ótimo hospital com muitos problemas”.
Uma noite no Walfredo Gurgel
19h: Macas e gentes transitam pelo Hospital Walfredo Gurgel. É hora de troca de plantão, o momento perfeito para se adentrar na estrutura do hospital. Os funcionários que estiveram desde às 07h da manhã do sábado se despedem dos que agora chegam para ficar até às 07h do domingo. A missão da reportagem é clara: observar todo o movimento das 12h de plantão noturno do sábado (30/05), que começa tranquilo. Características negativas que marcaram a história recente do Walfredo apresentam relativa melhora. A reportagem da TRIBUNA DO NORTE contou “apenas” 20 macas nos corredores principais do Pronto-Socorro Clóvis Sarinho. Claro, não deveria haver nenhuma. Mas é bom não esquecer que os apertados corredores do hospital já chegaram a abrigar mais de 60 macas. O movimento no setor de Politrauma, responsável pelo primeiro atendimento de acidentes, tiros, facadas, etc, está calmo. No entanto, os primeiros ecos de lamento já podem ser ouvidos no setor de Ortopedia. O médico que acabara de deixar o plantão (Dr. Thiago) há tempos tinha abandonado os atendimentos no Pronto-Socorro para realizar cirurgias. São dois médicos de plantão no fim de semana, quando o recomendável é quatro profissionais. O corpo clínico alega que cada procedimento cirúrgico necessita de dois cirurgiões, sendo um auxiliar. Por isso, a ausência de médicos no Pronto-socorro. À espera de atendimento, estão pacientes de todo o Estado. Campo redondo, Santa Cruz, Natal, Tangará, Mossoró. Os casos são sempre os mesmos: pernas e braços fraturados, entorses, em sua maioria casos simples. Enquanto os médicos não chegam, o clima na fila é tenso. Pacientes deitam no chão por falta de macas ou por pura impaciência. Outros choram a dor do membro fraturado. Após meia hora, os responsáveis pelo segundo plantão do sábado chegam e a fila, que continha pessoas com mais de cinco horas de espera, começa a andar.
21h: O ar tenso e murmurante do Walfredo Gurgel é cortado pelos gritos de J.E.A . Vítima de envenenamento, o homem de 45 anos não suporta com calma as dores do “veneno de rato” que consome o seu corpo. A partir de agora, todo o setor de urgência do Walfredo Gurgel está fadado a conviver com seus lamuriosos “ais” durante a noite. Erivaldo ainda está no ambulatório e tem a companhia de um sobrinho. Ao mesmo tempo, o bom andamento da fila da ortopedia é interrompido. Os dois médicos de plantão precisam correr ao centro cirúrgico e mais uma vez o atendimento é paralisado no setor. Alguns pacientes se dirigem até o Raio-x para depois terem de voltar para um novo exame com o ortopedista. A partir daí, alguns se encaminham para a sala de gesso, nos casos mais simples, outros para o centro cirúrgico. Dessa maneira, os primeiros atendidos do plantão das 19h voltam para a mesma fila, que não para de crescer, inchada pelo contínuo de pacientes de todo o Rio Grande do Norte, que chegam a todo o momento. Na reanimação, uma cena pitoresca. Duas senhoras discutem com a plantonista da reanimação. O motivo é simples. Elas querem jantar no corredor do hospital enquanto esperam por notícias da mãe, vítima de problemas cardíacos, que está sendo atendida naquele momento. A funcionária explica que é proibido comer ali. As duas argumentam que não querem sair de perto da mãe e perguntam repetidamente se tudo ficará bem. Não sei, responde a funcionária, e pede de forma não muito educada que as duas comam em outro lugar. Elas obedecem.
22h30: A falta de ortopedistas começa a irritar os pacientes. Um acompanhante, que se diz funcionário da Caern, cansa de esperar pelo atendimento para sua esposa e incentiva seus companheiros de fila a protestarem. Frente a inércia de todos, o homem levanta e reclama com o primeiro que vê pela frente. No caso, trata-se do funcionário da farmácia. A cena não pareceu exatamente inédita para o plantonista da farmácia satélite do Walfredo. Muito pelo contrário, o funcionário fez uma cara de quem já havia presenciado aquilo muitas outras vezes. O acompanhante esbraveja que sua mulher está sentindo dor e que ele exige atendimento. Como era de se esperar, o farmacêutico faz pouco caso, diz que o problema não é com ele e fica de cara amarrada. “Comigo você pode é reclamar que eu não posso fazer nada”, exclama. O clima de conflito entre usuários do serviço de saúde e profissionais do Walfredo Gurgel se instala. Daqui em diante não serão raros diálogos ríspidos tanto entre pacientes e funcionários quanto entre funcionários e funcionários. Dois casos mais complicados chegam. Um de um acidente de moto e outro de um braço fraturado. Os dois pacientes choram copiosamente no corredor enquanto os médicos se demoram no centro cirúrgico. O movimento no setor de politrauma começa a se intensificar. São pacientes que sofreram facadas, tiros e acidentes de moto. Alguns estão embriagados e iniciam discussões com os profissionais de saúde do atendimento. Um por pouco não é expulso do hospital e outro é liberado por falar palavrões e agredir verbalmente as enfermeiras. Comentário entre os médicos de plantão: “Hoje só veio figura”.
00h: Os gritos de J.E.A. repentinamente cessam. Pouco tempo depois, a correria de médicos é vista para o lado da reanimação. Erivaldo teve complicações e é reanimado pelos médicos do Walfredo Gurgel. No entanto, o veneno começa a fazer efeito. Os gritos triplicam em intensidade e agonia. Faz pena. É visível entre os funcionários o sentimento de que alguma coisa não iria sair bem. Pouco depois, um paciente defeca no corredor. Correria de enfermeiras e assistentes de serviços gerais. O odor é insuportável. No centro cirúrgico, alguns pacientes começam a ver sua situação melhorar. Thiago da Silva, de apenas 14 anos é um deles. Vindo de Campo Redondo com o braço quebrado, ele espera, junto do cunhado, Marcílio Fernandes, defronte à entrada do centro cirúrgico, pelo atendimento. Junto dele está Avelino da Costa, de 25 anos, de Mossoró. Ambos estavam na primeira turma das 19h e agora poderiam finalizar o atendimento para irem pra casa ou serem internados. No entanto, apenas o mossoroense consegue atendimento. Thiago da Silva é obrigado a voltar para a fila da ortopedia.
01h: O movimento até então calmo começa a se transformar na loucura de sempre. Acidentados e vítimas de violência chegam às pencas e os corredores voltam a ficar repletos de macas. O atendimento no ambulatório está corrido neste momento da noite. São seis pacientes com balão de oxigênio. Cerca de 20 pessoas se espremem na sala, por entre os vários compartimentos que a compõem. Os corredores ao lado começam a abrigar doentes e acompanhantes que tentam dormir na madrugada desconfortável do Hospital Walfredo Gurgel. Apaga-se a luz dos corredores e o sono corre solto. Acompanhantes dormem sentados. No politrauma, o trabalho fica intenso e alguns pacientes sobem para o centro cirúrgico enquanto a luta pela vida de J.E.A. fica cada vez mais difícil. Ele já não mais grita. Seu sobrinho percorre o corredor de um lado para o outro, nervoso. São vários profissionais tentando salva-lo, mas aos poucos perdem a guerra. Entre os enfermeiros e maqueiros corre o boato de que ele não resistirá. O som de seus gritos é substituído paulatinamente pelo ruído do aparelho que o manterá vivo por pouco mais de uma hora.
02h: Os pacientes da fila de ortopedia chegam no limite. Corre a história e a desconfiança de que os médicos estão fazendo corpo mole. Acompanhantes, como Fátima Bento Fernandes, de Tangará, que está com a mãe com um problema no braço, resolvem ir até o centro cirúrgico para exigir que os dois ortopedistas desçam e continuem o atendimento no pronto-socorro. Esse é o momento mais tenso da noite. Mais de seis pessoas tocam repetidamente a sineta do centro cirúrgico para atrair a atenção dos médicos. Ao identificar a reportagem da TRIBUNA DO NORTE, a dona de casa Edna de Souza mostra a guia de atendimento de seu filho, Felipe, de 13 anos, que havia fraturado o braço. Desde as 18h ela esperava passar por toda a estrutura de atendimento do Walfredo, desde o primeiro serviço até o último check-up e, finalmente, o momento de ir para casa. De acordo com o funcionário do Raio-X do Walfredo de plantão naquela noite, Hilton Duarte, já houve casos em que médicos foram agredidos por se ausentarem do pronto-socorro. “Eu mesmo já quase apanhei na cara”, diz Hilton. Mesmo sob a revolta dos pacientes, os médicos não se manifestam. O grupo ainda espera mais um pouco e resolve voltar para a fila.
03h: Erivaldo não resiste. No corredor o único som que se ouve é o da máquina que o mantia vivo, agora com aquele bip contínuo, típico de filmes. O sobrinho de Erivaldo parece atordoado. Agora é hora de resolver a burocracia que se segue à morte. Enquanto ele se dirige à assistência social para resolver a papelada, o atendimento na ortopedia é restabelecido. A fila anda. Thiago da Silva e seu cunhado, Marcílio Fernandes, finalizam o atendimento, mas agora se deparam com as dificuldades de voltar para Campo Redondo. Quando ambos já estavam conformados em esperar até a manhã por uma ambulância da Prefeitura local, aparece uma carona. Thiago, 14 anos, já dormia no chão da entrada do Walfredo. Ele aparenta sono e cansaço, mas com o braço quebrado numa queda de cima da árvore devidamente tratado. O encarregado do menino parece satisfeito. Fátima Fernandes também espera, do lado de fora do Walfredo, pela ambulância de Tangará. Sua mãe, Teresinha Bento, também teve seu problema resolvido.
04h30: O atendimento na ortopedia foi mais uma vez interrompido. A fila já está menor e menos barulhenta. A noite do Walfrego Gurgel é um tanto mais longa que a noite do resto da cidade. Apenas no fim da madrugada o Hospital adquire um clima de sono mais consistente. Agora, já não é mais possível ver a infinidade de maqueiros e enfermeiros que se deslocam pelos corredores. Tudo está calmo e o serviço de saúde fica restrito ao indispensável.
06h: Os dois plantonistas da ortopedia, de longe o setor mais problemático da noite, estavam conversando do lado de fora do hospital enquanto alguns pacientes esperam dentro da unidade de ortopedia. Abordados pela reportagem da TRIBUNA DO NORTE, explicam que a noite no centro cirúrgico foi agitada e que esse é o motivo de tantas ausências no pronto-socorro do setor. Mal conseguiu dormir e o Walfredo Gurgel tem de novamente acordar. A rampa de acesso ao Hospital já mostra ao longe mais um sinal de ambulância. Mais um potiguar para ser atendido.
07h: No total, o Walfredo Gurgel atendeu a 372 pacientes no período, segundo dados confirmados pela Assessoria de Imprensa do Hospital. 35 pacientes foram internados. O centro cirúrgico realizou 19 cirurgias. Noves fora a espera, a demora, a dor, o stress, a dedicação, o sono e o tédio, mais forte é a declaração de Teresa (nome fictício, pois a acompanhante não quis se identificar), há 21 dias com o marido internado em uma das U.T.I´s do Walfredo. “Se não fosse pela equipe do hospital, meu marido estaria morto agora”, diz.