Diz com quem tu andas e direi quem tu és. As amizades de Arnaldo Lira em Maceió cavaram a sepultura do técnico no CRB. Em uma curta passagem, que durou pouco mais de um mês, Arnaldo Lira passou pelo CRB como um “furacão”.
Com pinta de disciplinador, Lira implementou seu ritmo e sua forma profissional de trabalhar. Em pouco tempo no comando do clube regatiano, Lira criou desafetos dentro e fora de campo.
No campo, os jogadores demonstravam insatisfação com a forma rude com que eram tratados. “É duro o jeito do professor, um mau humor danado”, lamentou um jogador formado na base regatiana.
Para muitos, o pecado do técnico regatiano é a sua língua. Sincero e sem meais palavras, Lira discorre sobre os assuntos em que é questionado com a simplicidade de uma criança, mas destila um veneno que incomodou muitos dentro e fora do CRB.
Ao chegar, Lira desdenhou da “família CRB”. Com um grupo limitado tecnicamente, mas fechado e definido como um grupo, jogadores, diretoria e torcida firmaram um tipo de pacto. Durante a disputa do alagoano, criou-se a expectativa que o grupo para a Série C seria o mesmo do Alagoano com o reforço de quatro a seis peças que viriam para fortalecer o grupo.
Apoiado em um lista – que já havia sido definida pelo departamento de futebol do CRB – e nos resultados obtidos pelo clube – que não foi à decisão de nenhuma fase do campeonato, Lira dinamitou a “família CRB”. Afirmou de forma enfática, que o grupo precisava ser modificado em virtude de não ter ganho nada.
Jogadores considerados intocáveis, como Rafinha, Da Silva e Calmon, entraram em rota de colisão com o técnico. Logo na sua chegada, ainda durante o alagoano, Lira confidenciou a um amigo, conselheiro do CRB, que não gostava do estilo de jogo do atacante Calmon. Foi aconselhado a não mexer no jogador, pois além de um líder no grupo, Calmon era querido pelo torcedor e foi artilheiro do time no estadual. Lira ouviu, mas continuou com seu pensamento.
Dois jogadores preocupavam pelo extra-campo e incomodavam muita gente no CRB, mas que ninguém havia tomado uma providência. Da Silva e Rafinha freqüentemente se envolviam em atos de indisciplina. Sem a condição ideal de treinamento, Rafinha foi o primeiro alvo. O técnico afastou o jogador dos trabalhos em campo até que ele estivesse totalmente recuperado de problemas físicos, alegados pelo jogador.
Não demorou muito e Da Silva e Calmon também foram engolidos por Lira. Sem um aparato que protegesse o técnico, blindasse os jogadores e evitasse que informações internas viessem cair no colo da imprensa, Lira passou à linha de frente das atitudes e foi considerado o detonador da “familia CRB”.
Simpatizantes da “família CRB” e sem entender como um grupo mudou tanto em poucos dias, parte da imprensa esportiva que milita no dia-a-dia começou a fazer questionamentos mais fortes sobre a forma de trabalhar do técnico Arnaldo Lira. As entrevistas eram sempre mais “picantes”, as cutucadas surgiam de parte a parte e o clima foi ficando carregado.
Paralelo a tudo isso, Lira trouxe jogadores da sua confiança. A grande maioria vindos do Ferroviário (CE). Alguns não aprovaram e para dificultar o ambiente, o CRB estreou na Série C com derrota para o Salgueiro (PE).
Após a derrota, a semana tornou-se um “inferno” para o técnico do CRB. O primeiro problema foi o desgaste da derrota na estréia. Em seguida veio um desentendimento com o radialista Kleber Marques e a ira da categoria. Para ampliar seu “inferno astral”, Lira concedeu uma entrevista ao jornal Gazeta de Alagoas, no último domingo, atacando a “nova geração” da imprensa esportiva de Alagoas, adjetivando-os de “tendenciosos” e também detonando chefes de torcidas organizadas do próprio clube.
A reação da imprensa foi imediata. Mas a direção do CRB também não gostou. O vice-presidente de futebol do CRB, Márcio Lessa, ficou chateado com o encaminhamento que as coisas estavam tomando no CRB. “Estou cansado de ser bombeiro. Isto tem que ter um basta”, declarou Márcio no domingo que saiu a matéria.
Integrantes da torcida do CRB chegaram a se reunir para dar um “susto” no técnico e quebrar o seu carro. Um integrante da direção do CRB foi chamado às pressas para uma reunião e colocou água nos planos dos torcedores.
Apesar de não expressar publicamente a sua insatisfação, o presidente José Serafim mostrava o incômodo com a situação, pois estava totalmente fora do seu perfil.
Envenenado por amigos de “mesa de bar”, Lira disparou também contra pessoas influentes no futebol alagoano. Os irmãos João e Gustavo Feijó também foram alvos. Lira revelou que o seu abandono ao time do CRB – em sua última passagem – quando nem chegou a viajar com a delegação foi motivada por uma interferência do então dirigente Gustavo Feijó para escalar o time.
Já com o João Feijó o desentendimento foi por telefone. Em um bar de Maceió, ao lado do juiz Gerônimo Roberto e dos conselheiros Helder Pita e Luis Carlos, Patinha teve uma forte discussão por telefone com o integrante do Corinthians Alagoano. Lira o acusou de querer forçar a ida de jogadores para o CRB, comprar a imprensa e ter ganho muito dinheiro com o CRB. Feijó respondeu que não precisava do CRB para colocar seus jogadores, nem tão pouco do Ferroviário (CE). “Coloco jogadores onde eu quero, na Europa, no Cruzeiro e no Palmeiras”, fechou Feijó.
Fechando sua sepultura, Lira envolveu-se em uma confusão na madrugada deste sábado que acabou levando o técnico à Delegacia de Plantão III, localizada em Jaraguá.
O presidente José Serafim resumiu a situação dizendo que não aceitava este tipo de comportamento pois o técnico do CRB comandava um time de massa em que ele (Serafim) era o gestor. Lira estava definitivamente fora do CRB e fechou uma página desgastante do seu apaixonado relacionamento com o CRB.