Cinema, música e debates em palcos inéditos. Durante todo o mês de maio, o Festival Olhar Circular foi levado a 15 cidades — em aldeias indígenas, comunidades quilombolas e bairros marcados pela violência. Neste sábado (6), a partir das 18h, será a vez do Benedito Bentes, em Maceió. É a despedida do projeto, iniciativa do Movimento pela Vida e pela Paz, e mais uma oportunidade de conhecer a diversidade de Alagoas.

Na capital, a mostra já foi apresentada nos bairros do Vergel do Lago (23 de maio) e Jacintinho (29 de maio). O Olhar Circular mudou a rotina dessas localidades. Na rua Cabo Reis, no Vergel, uma construção chama a atenção. O muro, antes branco, ganhou as cores do boi de Carnaval e do destemido vaqueiro. Trata-se do Núcleo Cultural da Zona Sul, que abrigava a antiga Escola de Mar e Pesca. No lugar das redes, estão os instrumentos musicais, as tintas e a ginga dos capoeiristas.

No festival, um momento especial. Muitos jovens desafiaram a chuva para acompanhar toda a programação. Nas localidades da capital aconteceram oficinas de fotografia e grafitagem, por meio de um minicurso que surgiu a nova fachada do grupo.

No Vergel, a Banda fanfarra da Escola Edson Bernardes deu início à festa. A banda estava afinada. No repertório, o som tradicional dos desfiles de rua. As meninas, quanta energia. Na plateia, mais interação. Os adolescentes de pé conheciam os artistas no palco, eram os colegas deles.

O Vergel do Lago, tantas vezes apontado pelos homicídios e tráfico, se mostrava colorido, cheio de vida. Entre uma batida e outra dos pratos, uma mão interrompe as anotações. “Lembra de mim?”. Impossível esquecer um menino-bailarino. Euller Lima da Silva, 14 anos, participa do projeto voluntário da Academia de Dança Maria Emília Clark. Mas no sábado, ele era apenas mais um entre o público.

Passada a fanfarra, era a vez do maculelê — dança de origem africana. Os passos eram do grupo Cultura Legião, também da localidade. Os meninos cantavam: “Sou eu, sou eu, maculelê, sou eu!”. Espectadora, uma jovem mãe sabia todos os versos. Cristina de

Oliveira Pontes, 20 anos, revelou que também faz capoeira e o maculelê. “Dei uma parada por conta da minha filhinha, que ainda está pequena. Mas o meu marido está ali (no palco). Nós moramos no Rio Novo, pegamos dois ônibus para chegar aqui, mas sempre participamos das festas. Assim que der, eu volto pra roda”, conta.

Outro capoeirista, Alisson de Souza, 14 anos, aguardava a sua hora. O adolescente faz parte do projeto Inovação Abadá, que atende a 60 meninos no Núcleo da Zona Sul. “Eu venho para cá todos os dias. Faço capoeira, de 6h às 7h, e dança, no começo da noite. Venho direto da escola”, afirma.

Sobre as ações do núcleo, Alisson conta: “Desde os 10 anos, eu estou aqui. Se não tivesse esse lugar, ficava muito ruim para a gente se divertir. Quando não estou na capoeira ou na dança, aproveito para ler um pouco”. Planos para o futuro: “Quero ser policial. Não gosto de bandido e não quero saber de droga”.

O coordenador do Inovação Abadá é o professor Paulo André dos Santos, mais conhecido como Morcego Negro. “Muitas dessas crianças têm o pai traficante. Correm sério risco de se envolverem com drogas. O projeto ajuda a mantê-las afastadas, com mais disciplina”, diz.

O presidente da Associação dos Folguedos Populares da Zona Sul — que integra os bairros do Trapiche, Joaquim Leão, Virgem dos Pobres, Vergel e Ponta Grossa —, Nonato Lopes, explica que a população dessas comunidades quer ser mostrada também pelas suas criações e atividades culturais.

“Nós temos 22 grupos de boi. Temos meninos e meninas que tocam percussão, fazem dança, teatro, capoeira, hip hop. Queremos ser vistos de outra forma pela sociedade. Tem muita gente séria e de bem que mora na periferia”, ressalta Nonato Lopes.

A iniciativa no Vergel revela a força dessa região. O produtor Glauber Xavier, responsável pelo grupo Saudáveis Subversivos e também pela ida do Olhar Circular ao bairro, mostrou sua admiração. “Nós encontramos aqui uma comunidade organizada. Eles têm capoeira, boi, quadrilha, maculelê e outros folguedos. Todos dividem esse espaço, sem atritos. Existe sala até para musculação”, conta.

Super programação — Além das apresentações de grupos da comunidade, o festival apresenta também artistas como Chau do Pife, Vitor Pirralho e a banda Mensageiros de Jah. Mais de 50 filmes são mostrados, todos nacionais. Acontecem também oficinas de cultura de paz.

O Festival Olhar Circular é uma iniciativa do Fórum pela Vida e pela Paz. Foi criado pelos Saudáveis Subversivos, artistas que têm como proposta democratizar a cultura. O governo do Estado também está nessa parceria. Por meio da ação de cinco secretarias estaduais (Planejamento, Saúde, Educação, Cultura e Comunicação), o poder público toma parte dessa ação. Saiba mais pelo site: www.olharcircular.org.br.