O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) não soube explicar como fiscalizou o dinheiro emprestado e supostamente desviado pela Prefeitura de Praia Grande (SP) e por ONGs ligadas à Força Sindical. O possível desvio foi investigado pela Polícia Federal durante a Operação Santa Tereza.

A afirmação é da procuradora da República Adriana Scordamaglia, que ontem (2) ofereceu denúncia contra quatro novos suspeitos de participar da organização criminosa, entre eles, Elza Pereira da Silva, mulher do deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho da Força, e o ex-prefeito de Praia Grande Alberto Mourão (PSDB).

De acordo com a procuradora, o BNDES tem a obrigação de fiscalizar o dinheiro que empresta, principalmente porque o valor é liberado em parcelas. "[O BNDES] teria de fiscalizar", afirmou a procuradora.

Ela disse que as pessoas responsáveis pelos empréstimos do banco foram questionadas sobre essa fiscalização, mas não souberam responder como ela foi feita. "Em algumas respostas que eles nos deram, eles afirmam que fiscalizaram, mas o trâmite do dinheiro e o emprego do dinheiro, onde ele foi depositado, eles não sabem responder", disse.

Ela afirmou que não descarta a participação de algum funcionário do BNDES no suposto desvio, mas que nada foi "detectado" nas investigações. "Isso não foi descartado, mas não conseguimos saber se houve a participação de alguém do BNDES e singularizar a pessoa", afirmou. "Muitas vezes temos muitas suspeitas, mas não suficientes para chegar à autoria do crime."

Ela disse, no entanto, que o BNDES não será investigado por ela. "A parte da denúncia a que me cabia e esse inquérito policial já acabou. Mas nada impede que outras irregularidades envolvendo o BNDES também sejam objetos de outras investigações", afirmou.

Além de Elza, a Procuradoria denunciou Wilson Carvalho de Oliveira, presidente da ONG Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e Pesquisa Política, Social e Cultural do Trabalhador, e Felício Makhoul, dono do prédio onde havia um prostíbulo onde a quadrilha se encontrava. A denúncia foi aditada à que foi oferecida em 2008 pela Procuradoria.

"O representante da ONG [Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e Pesquisa Política, Social e Cultural do Trabalhador] também foi denunciada pela mesma conduta da Elza. [...] Primeiro foi desviado o dinheiro do BNDES e depois esse dinheiro foi lavado através dessas ONGs", disse a procuradora.

De acordo com a Procuradoria, escutas autorizadas pela Justiça mostraram que o ex-prefeito teria autorizado o desvio e 2% da verba de um financiamento de R$ 130 milhões obtido pela prefeitura junto ao BNDES.

"Todo aquele que concorre para a prática de um crime deve ser responsabilizado. Nesse caso, a dona Elza, ao ceder sua conta para o depósito que sabia ser de origem ilícita, ela concorreu para a prática de lavagem de dinheiro e, por isso, foi denunciada pela prática desse crime", disse a procuradora.

Mourão também foi denunciado por corrupção passiva, pois a investigação descobriu que Manuel Fernandes de Bastos Filho o Maneco --dono do prostíbulo WE e principal articular da quadrilha-- pagou para ele quatro passagens para o Rio. Numa dessas viagens, Mourão assinou um contrato com o BNDES.

Já Elza teria permitido a utilização da conta corrente da ONG Meu Guri, que ela preside, para ocultar R$ 37.500 --que seria parte do dinheiro desviado dos contratos firmados entre o BNDES com a Prefeitura de Praia Grande e o grupo Lojas Marisa.

O dinheiro foi depositado por João Pedro de Moura, assessor de Paulinho e um dos beneficiários dos recursos desviados. Moura foi denunciado por lavagem de dinheiro.

A procuradora preferiu não se manifestar sobre Paulinho. "Com relação ao Paulinho, eu não me manifesto. É prematuro, é irresponsabilidade da minha parte dizer qual é a posição dele nessa organização criminosa sendo que eu nem sei ao certo quais são os fatos e se os fatos da denúncia tem ligação com ele", disse.

O ex-prefeito disse por meio de sua assessoria que aguarda uma posição do Poder Judiciário sobre a denúncia para poder se manifestar. A reportagem ainda não conseguiu localizar outros dois denunciados.