São milhares de toneladas de pedra e a água barrenta correndo entre
elas. Isso é tudo o que se vê de cima da Barragem de Algodões 1, em
Cocal da Estação, a 268 km de Teresina. Há menos de uma semana, era uma
região repleta de sítios de onde pequenos proprietários rurais tiravam
seu sustento em plantações de milho e mandioca. Hoje, é apenas lama.
Às
margens do Rio Pirangi restaram poucas casas que nunca estiveram tão
próximas de seu curso. A onda de cerca de 20 metros a que se referem os
sobreviventes redesenhou o leito do rio e expulsou tudo o que ela não
levou. O rompimento da barragem deixou sete mortos (um corpo ainda não
identificado), 2 mil desabrigados, 973 desalojados e 80 feridos.
Uma
tragédia que poderia ter sido evitada, caso a população ribeirinha não
tivesse sido orientada a retornar às casas. "Estive aqui há 16 dias,
mandando o povo sair", diz o funcionário da prefeitura de Cocal, Carlos
Antônio da Costa Portela. "Por que mandaram voltar?"
Para a
mesma pergunta não encontram respostas o lavrador Edgar Pedro da Silva,
de 44 anos, e sua mãe, Maria Cícera da Silva, de 63. Filho, mãe, nora e
netas passaram 12 dias alojados na Escola Municipal Domingos Alves
Gomes, antes de voltar para casa, na segunda-feira. "Disseram que quem
morava a mais de 100 metros do rio podia voltar", diz o lavrador.
"Nunca devíamos ter saído da escola."
Quando a barragem
estourou, a família teve pouco tempo para fugir: menos de dez minutos
se passaram para que Edgar levasse todos encosta acima. Da casa restou
pouco. "Só não caiu, mas está toda devorada. Ninguém tem condições de
viver lá, não", diz Maria.
Anteontem, eles voltaram para a
escola. Encostados ao quadro negro, fogão, panelas e a comida
suficiente para três dias dividem espaço com uma pilha de carteiras.
Assim como no resto de Cocal, a energia elétrica está cortada.
Apesar
de aliviados por terem deixado as margens do Pirangi, dessa vez a
mudança foi mais penosa. Além da certeza de não poder retornar, não
contaram com o auxílio da Defesa Civil para levar os poucos pertences.
Roupas, panelas, alguns quilos de arroz, um botijão de gás e o fogão
foram levados a pé pelos 2,5 quilômetros de estrada de terra (e barro).
Os Silvas perderam mais do que a casa. Das três crianças
reconhecidas como mortas, duas eram da família: Francisca Maria
Pereira, de 10 anos, e Maria Andreina Pereira, de 6. Além delas, Maria
Alessandra Pereira, de 16 anos, cujo corpo foi encontrado na manhã de
ontem, também fazia parte da família.
BAR
Nada sobrou da
casa de Vladimir Machado de Albuquerque, de 45 anos, que tirava o
sustento de dois tanques de piscicultura e de um bar. Ele e a mulher
haviam passado as duas últimas semanas na cidade, longe do Pirangi.
"Ouvia os engenheiros dizer que dava para resolver a situação da
barragem, mas aquilo estava sendo comido pela água", diz. Por pressão
da mulher, retornou para a beira do rio. Depois que a barragem se
rompeu, passou dois dias abrigado de favor e, na sexta-feira, resolveu
voltar para casa, que não existe mais.
Saiu percorrendo o que
sobrou dos sítios da região e juntou madeira e telhas de zinco para
fazer uma barraca. Encontrou duas mesas e cinco cadeiras de ferro.
Acendeu uma fogueira, levou uma caixa de garrafas com água filtrada e
cachaça e montou o primeiro bar da região da Barragem de Algodões 1,
desde que ela se rompeu. "Tenho esperança que o governo me indenize,
mas não vou ficar lamentando", afirma.
A casa de seu vizinho,
João de Brito Machado, de 40 anos, também não existe mais. Ele perdeu
as plantações de milho, mandioca e cem pés de caju. "Me sobrou apenas
essa roupa (bermuda, camiseta e um par de chinelos)." Restou também a
família e a casa de sua mãe, Isabel Alves de Brito Machado, de 70 anos,
onde ele e mais nove pessoas estão agora alojados.
A mãe de
João tinha criação de porcos e galinhas, plantava milho, feijão e um
pequeno canavial. Com exceção de alguns pés de cana, tudo foi levado
pela enxurrada. De poucas palavras, Isabel observa a destruição com
olhar perdido, quando recebe um presente: uma tilápia de bom porte,
achada no lodaçal. Já se passaram mais de 48 horas desde o acidente e a
resignação parece se igualar à dor. Ela diz que vai preparar o peixe.
"Está limpinho, não tem problema, não."
Famílias tentam retomar a rotina no Piauí
31/05/2009, 22:19 - Brasil/Mundo
Por master
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