Os governos do Brasil e da Venezuela não chegaram a um acordo sobre a refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. O vazamento da discussão entre os presidentes dos dois países e o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, no sistema de tradução montado para a entrevista coletiva, permitiu que os jornalistas acompanhassem as dificuldades de negociação, no encontro reservado entre os três, em um hotel, em Salvador (BA).
O governo venezuelano deveria entrar com 40% dos recursos para a construção da refinaria, mas até agora só o governo brasileiro investiu na obra. Isto porque a Venezuela tem feito exigências, como o direito de comercialização do petróleo importado no Brasil.
Mas as regras brasileiras determinam que só quem pode vender internamente é a Petrobras. Pelo sistema de som foi possível identificar a decepção de Chávez. Ele lamentou que os dois países não tenham sido capazes de fazer um acordo.
O presidente da Petrobras esclareceu que três pontos ainda dependem de mais discussão: custos de investimento, comercialização do produto e o preço do petróleo. Gabrielli pediu mais 90 dias para discutir essas questões.
Chávez reclamou. “Lamentável não sermos capazes de fazer um acordo. Confesso que estou frustrado. A culpa é dos dois governos”, afirmou. “Se eu conseguir eleger a Dilma, eu já disse para o Gabrielli, eu vou ser o presidente da Petrobras e você, Gabrielli, vai ser meu assessor e o acordo (com a Venezuela) vai sair”, disse o presidente Lula, em tom de brincadeira, numa referência à candidatura de Dilma Rousseff, à presidência da República. “E eu vou fazer o que? Eu não quero fazer nada”, respondeu Chávez.
Leilões
A diretora de Gás e Energia da Petrobras, Graça Foster, afirmou ontem que a companhia fará “mais dois ou três” leilões de gás natural até o fim deste ano. Com a queda na demanda por gás, devido à substituição do produto por outros combustíveis que passaram a ter preço mais competitivo, a estatal petrolífera já promoveu cinco leilões exclusivamente para a comercialização de gás em 2009.
Somente em três leilões eletrônicos para entrega nos meses de maio, junho e julho, a Petrobras vendeu 5,127 milhões de metros cúbicos (m³) de gás, porém, o excedente continua. “Hoje, eu tenho 20 milhões de metros cúbicos de gás e eu não tenho o que fazer com ele”, disse Graça, durante palestra no Gas Summit Latin America 2009.
Apesar de admitir a necessidade de realização de mais leilões para a comercialização de gás, a diretora afirmou que a Petrobras já verifica reação no consumo, em resposta à recuperação do nível de atividade econômica. Segundo ela, o mercado não térmico (indústria, automóveis, residência e comércio) demandou 31,9 milhões de m³ de gás por dia em maio, em média, de acordo com dados colhidos até ontem. Em abril, o consumo do mercado não térmico foi de 29,2 milhões de m³ diários e, em março, foi de 28,8 milhões de m³ por dia. Já em relação ao mesmo período do ano passado, a demanda ainda é significativamente menor. Em maio de 2008, o mercado não térmico consumiu 38,3 milhões de m³ de gás por dia, em média. “Estamos verificando volta da demanda. Em um único dia, chegamos a verificar picos de demanda de 35 milhões de metros cúbicos”, observou.
Já o consumo de gás das térmicas permanece bem inferior à média do ano passado. De acordo com Graça, as termoelétricas consumiram 7,7 milhões de metros cúbicos por dia de gás, em média, este ano. A média de 2008 foi de 14,5 milhões de metros cúbicos diários. Segundo Graça, a crise econômica não está inviabilizando discussões com as distribuidoras de venda futura de gás.
Durante entrevista após participação no evento, a diretora afirmou que está mantida a negociação com a concessionária de gás do Estado de São Paulo, a Comgás, para contratação de oferta adicional de gás natural visando atendimento da demanda no médio prazo. “Temos uma agenda junto a Comgás para continuar negociando”, disse, sem detalhar o andamento das conversas. “A gente acredita, de fato, que a economia volta, puxando o consumo de gás.”