Os líderes do grupo islâmico radical Taleban e outros grupos armados no Afeganistão exigem uma data para a retirada das tropas dos Estados Unidos do país como condição prévia para conversas sobre acordo de paz com o governo afegão --que encerraria oito anos de conflito no país asiático.

Segundo reportagem publicada nesta quinta-feira pelo jornal "The New York Times", que cita líderes afegãos, as conversas sobre um acordo de paz em potencial estão sendo realizadas com os representantes de Gulbuddin Hekmatyar, descrito pela publicação como um lorde da guerra terrorista, e com Sirajuddin Haqqani, cuja guerrilha armada tem base em áreas tribais do Paquistão e é conhecida por enviar homens-bomba ao Afeganistão.

A primeira exigência é a retirada das tropas americanas e de todas as forças estrangeiras de volta às bases no país e, em 18 meses, a saída completa dos soldados estrangeiros. As forças estrangeiras seriam substituídas por uma força de manutenção da paz formada de homens de nações muçulmanas, com a garantia de que os insurgentes não atacariam.

Em seguida, afirma o jornal, o atual governo deve ser substituído por uma equipe de transição formada por líderes afegãos de todas as áreas, incluindo do Taleban e outros grupos insurgentes. Com a saída dos soldados ocidentais, eleições nacionais seriam realizadas.

O jornal afirma ainda que os líderes do Taleban querem ainda o fim dos ataques com aviões não-tripulados nas áreas tribais do Paquistão --onde os militantes encontraram reduto após a invasão americana em solo afegão-- e a libertação de prisioneiros do grupo.

"A maioria das exigências iniciais não são reais para os americanos, de qualquer forma. Mas, mesmo assim, as conversas são significativos porque sugerem como uma solução política pode ser capaz de encerrar a guerra de oito anos e como as negociações podem proceder", escreve o jornal.

As conversas são apoiadas pelo governo do presidente Hamid Karzai, que sofre intensa pressão interna e internacional por uma ação mais eficaz no combate aos grupos insurgentes no país --que expandiram seus redutos fora do eixo tradicional no sul e no leste e garantiram o ano mais violento desde a invasão americana no país, em 2001.

A administração do presidente dos EUA, Barack Obama, que já declarou apoio aos talebans moderados, afirmou não estar envolvida nestas discussões e rejeitou diálogo até que o Taleban entregue as armas.

As discussões, ainda segundo o jornal, ainda não trouxeram resultados concretos, mas destacam a necessidade da saída das tropas americanas para a paz em um momento no qual Obama acaba de anunciar o reforço da guerra ao terrorismo no país e sua expansão ao vizinho Paquistão.

Com a promessa de 20 mil soldados adicionais, Obama, que defende a via diplomática, pretende atingir militarmente os militantes radicais antes de forçá-los, já enfraquecidos, a uma negociação de paz.

Obama deixou, contudo, a possibilidade aberta ao afirma em entrevista à revista "Newsweek" que os EUA não vencerão "apenas acumulando mais e mais tropas". "Os soviéticos tentaram isso [durante a ocupação que foi de 1979 a 1989], e não funcionou bem. Os britânicos tentaram [no século 19], e não funcionou. Temos que encaixar nossa ação em um contexto de um amplo esforço para estabilizar a segurança do país."

Segundo os intermediários ouvidos pelo jornal, as negociações ocorrem há meses, mas foram aceleradas desde a chegada de Obama à Casa Branca --um indicativo de que a retórica do democrata pode trazer resultados efetivos no país.

Secreto

As negociações impõe ainda desafios a Obama e a Karzai, que podem colher os resultados políticos de fazer acordo com grupos radicais vistos como grandes inimigos pelos cidadãos de ambos os países.

"A América não pode ganhar esta guerra e o Taleban não pode ganhar esta guerra", disse Mullah Abdul Salaam Zaeef, ex-embaixador Taleban e um dops intermediários. "Eu levei essa mensagem ao Taleban".

Os líderes talebans e de outros grupos armados negaram publicamente as negociações, mas os intermediários afirmam que as conversas são realizadas diretamente com o conselho de liderança do Taleban chefiado por Mullah Muhammad Omar.

Os americanos também negam as conversas. Um comunicado do Departamento de Estado cita um único encontro com Abedi que foi interrompido porque os americanos foram proibidos de encontrar-se com representantes de Hekmatyar.

Contudo, dois os principais intermediários, Zaeef e Daoud Abedi, afirmam ter conversado inúmeras vezes com funcionários americanos.