Acostumada a figurar nos jornais internacionais pela beleza das suas praias ou pelo carnaval de proporções globais, o Recife aparece com destaque negativo na edição de hoje do jornal inglês The Independent. A reportagem intitulada “Morte dos indesejáveis: A capital brasileira dos assassinatos” é do jornalista Evan Williams, que esteve na capital pernambucana para mostrar os números da violência e traçar um perfil das vítimas dos cerca de doze homicídios praticados, em média, por dia na cidade.
“Com sol o ano inteiro e algumas das melhores praias do Brasil, o Recife atrai um milhão de turistas por ano, a maioria deles em voos diretos da Inglaterra e do resto da Europa. É estranho para eles encontrarem um painel eletrônico no meio da cidade que registra o número diário de assassinatos. Por trás da faixa estreita de restaurantes de praia e dos arranha-céus mostrados nos catálogos turísticos, vive uma cidade violenta”. Esta é a introdução da reportagem que entrevistou policiais, o secretário de Defesa Social, Servilho Paiva, e integrantes de programas sociais e organizações não-governamentais envolvidas com ações de cidadania e prevenção à violência.
O repórter ressalta a atuação de policiais em grupos de extermínio e o perfil das vítimas. “Muitos dos ´assassináveis´não são mais do que crianças que foram levadas às ruas da cidade pela pobreza e pela violência doméstica nas favelas localizadas nos arredores da cidade”, diz a reportagem. No texto, um adolescente morador de rua de 14 anos identificado como Roberto diz que o pior perigo é obter uma sentença de morte nas ruas. “E você ainda pode ser queimado vivo aqui”, diz o rapaz.
Os carrascos das crianças de rua seriam os policiais integrantes de grupos de extermínio. Em entrevista, o delegado Walcir Martins teria dito que os grupos de extermínio seriam responsáveis por pelo menos um terço dos assassinatos cometidos na cidade. “Pode ser difícil para eles cometerem o primeiro assassinato mas eles se acostumam e a coisa vira uma avalanche. Eles não têm sentimentos humanos”, teria dito o delegado ao jornal inglês.
O jornalista narra o encontro que teria tido com um suposto policial militar, em serviço há cerca de vinte anos, que admitiu fazer parte de um desses grupos e já ter matado mais de 30 pessoas. “Ele disse que mata nas favelas. Ele tinha um revólver prateado na cintura, que fez questão de checar que estava descarregado antes de começar a conversa”, diz o texto. O suposto policial diz que as vítimas são, em sua maioria, estupradores e traficantes de drogas. Por fim, o PM afirma não sentir remorso pelas vítimas e acreditar estar prestando um “serviço social”.
O texto ressalta que a polícia está atuando para combater os grupos de extermínio e que 400 pessoas já foram presas no estado. O policial entrevistado, no entanto, teria rido da tentativa e dito que muitos oficiais de alto escalão estão envolvidos e que “encomendam” mortes aos oficiais. O secretário Servilho Paiva também é ouvido na reportagem e diz que a polícia e o estado estão seriamente comprometidos em prender os policiais envolvidos com a criminalidade, mas teria admitido apenas uma responsabilidade limitada pela ação dos grupos de extermínio integrados por policiais. “Se um oficial está de serviço e mata alguém, a responsabilidade por isso cai sobre nós e sobre mim. Se ele está fora de serviço, não é nossa responsabilidade”, teria dito o secretário ao jornal birtânico.