O deputado Nelson Pellegrino (PT-BA) apresentou nesta
quinta-feira (23) seu relatório na CPI dos Grampos mantendo de
fora dos pedidos de indiciamento o banqueiro Daniel Dantas e o
delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz, que presidiu a
Operação Satiagraha. Diretores da Agência Brasileira de
Inteligência (Abin) também ficaram de fora do pedido de
indiciamento. A votação do relatório deve acontecer apenas na
próxima semana, quando já uma sessão marcada para terça-feira
(28).
O documento também não aponta responsáveis pela
escuta telefônica de uma conversa do presidente do Supremo
Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, com o senador Demóstenes
Torres (DEM-GO), o que abriu uma crise sobre as escutas ilegais.
No seu relatório, porém, Pellegrino pede o indiciamento de
quatro pessoas envolvidas com escutas ilegais.
A CPI foi instalada em dezembro de 2007. Ganhou os
holofotes com a Operação Satiagraha da Polícia Federal. Foi
prorrogada diversas vezes, mas não consegui acesso aos autos
desta operação. A última prorrogação aconteceu em março, quando
Pellegrino já havia apresentado seu relatório deixando Dantas,
Protógenes e a cúpula da Abin de fora por “falta de provas”.
O presidente da CPI, Marcelo Itagiba (PMDB-RJ), já
havia anunciado que apresentará voto em separado pedindo o
indiciamento de Dantas, Protógenes e do ex-diretor-geral da Abin
Paulo Lacerda, sendo o primeiro por interceptação telefônica e
os outros dois por falso testemunho. A oposição também pode
apresentar voto em separado com pedidos de indiciamentos.
Para o relator, no entanto, Protógenes não pode
ser indiciado porque depôs protegido por um hábeas corpus
concedido pelo Supremo Tribunal Federal (STF). No caso de
Lacerda, Pellegrino relata que as supostas declarações “falsas”
foram corrigidas em documento enviado à CPI pelo ex-diretor da
Abin após o depoimento. Quanto ao banqueiro Daniel Dantas, o
relator destaca que ele já foi indiciado pela PF, não havendo
motivo para novo pedido. O mesmo argumento também foi aplicado
para poupar Protógenes, já indiciado pela PF por compartilhar
informações com a Abin.
A única alteração relativa aos pedidos de
indiciamento no relatório da CPI foi a inclusão do terceiro
sargento da Aeronáutica Idalberto Martins de Araújo. Ele é
acusado de participar da Operação Satiagraha e Pellegrino pediu
seu indiciamento por possuir material sigiloso em sua
residência.
Em seu texto final, o petista procura fazer um
diagnóstico sobre as escutas telefônicas. Ele destaca a
informação obtida pela CPI de que quase 400 mil interceptações
telefônicas foram feitas em 2008 e afirma que o instrumento está
“banalizado”. Faz críticas ao Judiciário por conceder
autorizações genéricas. “A era do grampo autorizado por atacado
tem de acabar”.
Pellegrino ataca a polícia e o Ministério Público
também. Afirma que muitas vezes os órgãos de investigação partem
para interceptações mesmo tendo outras formas de conseguir
informações. O relator destaca ainda "abusos" como
escutas realizadas pela Polícia Rodoviária Federal ou
autorizadas por varas de família.
Ele apresenta também um projeto de lei para
alterar as regras sobre escutas telefônicas. Uma das principais
mudanças é limitar o tempo de permissão para os grampos com
autorização judicial. Atualmente, a autorização judicial permite
escutas a cada 15 dias, mas não há limite para as prorrogações.
A proposta do relator é que a concessão de autorização seja por
30 dias e que o prazo máximo seja de 180 dias, com exceção para
crimes permanentes. Prevê ainda punição para funcionários
públicos que cometerem grampos ilegais e até cinco anos de
prisão para quem realizar este crime.
Outra mudança proposta no projeto é que o juiz
responsável por autorizar escutas não seja o mesmo que julga a
causa. Pellegrino prevê ainda pena de cinco anos para envolvidos
em vazamento de informações protegidas sobre sigilo, podendo a
pena ser maior ainda se o vazamento for feito por agente
público, que estaria sujeito a demissão.