O governador David Paterson apresentou um projeto de lei que legaliza o casamento homossexual no Estado, e prometeu que se envolveria pessoalmente no debate legislativo, com uma intensidade que seus predecessores no posto nunca exibiram.

Emprestando o prestígio de seu posto ao projeto, que ainda enfrenta consideráveis obstáculos no Legislativo estadual, em Albany, Paterson disse que utilizaria os relacionamentos pessoais que desenvolveu durante suas duas décadas como senador estadual para conseguir que o projeto fosse votado - e aprovado. A votação no Senado deve ser decidida por margem mínima, e alguns dos proponentes da idéia afirmam que a participação direta de Paterson pode exercer papel decisivo.

Em entrevista coletiva em Manhattan, na quinta-feira, Paterson, democrata, invocou o movimento abolicionista do século 10, os escritos de Harriet Beecher Stowe e a decisão da Corte Suprema no caso Dred Scott, ao argumentar que Nova York vem negligenciando há tempo demais os direitos dos homossexuais. "Agora isso acabou", ele disse. "Temos o dever de garantir que a igualdade exista para todos".

O anúncio surgiu em meio a crescente atividade quanto a casamentos homossexuais, em todo o país. Os Estados de Iowa e Vermont os legalizaram no mês passado, e o Senado estadual de New Hampshire debaterá um projeto para isso esta semana. Massachusetts e Connecticut já permitem casamentos homossexuais, e há uma campanha em curso para que todos os Estados da Nova Inglaterra venham permiti-los até 2012.

Em Nova York, a Assembleia estadual aprovou um projeto que permitiria o casamento homossexual por 85 a 61 votos, em 2007, uma margem que deve crescer quando o projeto voltar à pauta, nas próximas semanas. No Senado, porém, o caminho é menos claro. A aprovação requereria 32 votos, e os democratas dizem que cerca de 25 de seus atuais 32 membros apoiam a medida. Assim, o sucesso do projeto dependerá da capacidade de Paterson e outros defensores da idéia de persuadir senadores republicanos, que relutam em desafiar os líderes de sua bancada e votar em favor da medida.

Os defensores dos direitos dos homossexuais expressaram confiança em que o envolvimento pessoal de Paterson possa fazer toda diferença, a despeito de seu índice de aprovação muito baixo e das dificuldades que vêm enfrentando para promover outros dos itens de sua agenda. Eles afirmam que os legisladores ocasionalmente se sentem menos comprometidos para com a lealdade partidária quanto está em jogo uma questão de direitos civis, a exemplo do casamento homossexual.

"Não se trata de algo que dependa da popularidade dele; é uma questão pessoal demais", disse Alan Van Capelle, diretor executivo da Empire State Pride Agenda, a organização de defesa dos direitos homossexuais que está liderando a campanha pela aprovação. "A causa desafia a lógica política que domina Albany".

Capelle e outros proponentes afirmam que, em 2002, 13 republicanos se uniram a 21 democratas na aprovação de um projeto de lei que proíbe especificamente a discriminação por orientação sexual. O resultado do voto era dúbio até o último minuto - uma ocorrência rara em Albany, onde os líderes do Senado e da Assembleia raramente permitem que projetos cheguem à votação sem que o resultado possa ser previsto.

Alguns dos defensores do casamento homossexual, entre os quais Paterson, estão pressionando por abordagem semelhante, agora. Ao forçar a votação sem que o resultado seja conhecido, argumentam, eles poderiam levar os senadores que estão em dúvida a votar em favor da proposta, por medo de serem vistos como inimigos dos direitos homossexuais.

Em Albany, as organizações de defesa dos direitos dos homossexuais são uma força política considerável. Elas doaram centenas de milhares de dólares para candidatos envolvidos em disputas acirradas, na eleição do ano passado, e ajudaram os democratas a conquistar mais dois assentos e a maioria no Senado, pela primeira vez em mais de quatro décadas.

Mas um porta-voz do líder da maioria no Senado, Malcolm Shafran, declarou na quinta-feira que o projeto "será levado a plenário assim que houver votos suficientes para sua aprovação".

O papel de Paterson na condução do projeto pelo Legislativo, que ainda está sendo definido por seus assessores, por líderes legislativos e em consulta com grupos de lobbies, é apenas a mais recente de suas campanhas pessoais em defesa dos direitos dos homossexuais, ao longo de sua carreira política.

Quando senador novato, nos anos 80, ele liderou o primeiro esforço para aprovar leis estaduais contra os crimes de ódio em Nova York Anos depois, quando o projeto foi enfim aprovado, em 2000, continha cláusulas específicas de proteção aos homossexuais por insistência de Paterson.

Seu investimento emocional na questão ficou claro na quinta-feira, em um discurso de 15 minutos no qual inseriu o casamento homossexual no contexto histórico da escravidão, da falta de direitos políticos para as mulheres e da rejeição aos deficientes.

"Todos nós conhecemos a ira da discriminação", disse Paterson, o primeiro governador negro do Estado. "Todos sentimos a dor e os insultos do ódio. É por isso que estamos todos aqui hoje".

Cercado por dezenas de líderes políticos do Estado, entre os quais congressistas federais e estaduais e o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, ele disse que "desejamos realizar os sonhos dos norte-americanos, vivos e mortos, que lutaram incansável e corajosamente, por dois séculos, para expandir essas liberdades a mais cidadãos. Muitas vezes ficamos aquém do necessário, mas a maravilha e milagre dos Estados Unidos é que continuamos a marchar no caminho da justiça".