Uma proposta de lei que descriminaliza e regulariza a indústria do sexo
na África do Sul deve chegar ao Parlamento no segundo semestre deste
ano. Se adotada, a nova lei poderia entrar em vigor antes da Copa do
Mundo, em junho do próximo ano.
A ideia é polêmica já que o país
é o líder no número de casos de Aids no mundo. Segundo dados de 2007,
cerca de 5,7 milhões de sul-africanos, mais de 10% da população, tem o
vírus HIV.
A proposta de legalização do trabalho sexual está
sendo analisada pela Comissão de Reformas Legislativas da África do
Sul, que deve enviar um parecer ao Parlamento em junho ou julho deste
ano.
Na prática, a lei é uma forma de permitir o trabalho em
determinadas áreas e fiscalizá-lo. Se a conclusão for favorável, o
Parlamento vai iniciar as discussões para aprovação ou não de uma nova
lei.
Experiência alemã
Desde 1994, quando a África do
Sul realizou as primeiras eleições livres de sua história, a
possibilidade de legalização da prostituição vem sendo discutida e
apoiada por grupos de defesa dos direitos dos profissionais do sexo,
como a organização não-governamental SWEAT.
O diretor da ONG,
Eric Harper, acredita que o fato de a próxima Copa do Mundo ser na
África do Sul pode contribuir para a aprovação da lei.
Ele cita
a Alemanha, sede do Mundial de 2006, como exemplo. Lá, a indústria
sexual é legalizada desde 2002, os profissionais têm direitos
trabalhistas como férias e seguro-saúde e não houve um aumento
significativo na prostituição durante o evento. Eric defende que o
mesmo deva ser feito para 2010 por questões de segurança.
"As
pessoas que vem pra cá, normalmente torcedores homens, vão usar os
serviços dos profissionais do sexo. Quando o trabalho sexual não é
regulamentado, você dá oportunidade de criminosos tirarem proveito
desta situação e coloca em risco tanto os trabalhadores como os
torcedores. Se você quiser prevenir desastres durante o evento, o
melhor caminho é a legalização."
Para Aneeke Meerkotter,
advogada especialista em combate à violência contra a mulher, a
regularização da indústria do sexo poderia até contribuir para combater
a Aids na África do Sul.
"Nós queremos ter certeza de que todos
aqui têm os mesmos direitos de acesso ao sistema de saúde", disse
Aneeke Meerkotter à BBC Brasil.
"Se você é um profissional do
sexo, e sua profissão não é regulamentada, é muito difícil ser atendido
porque você sofre discriminação e é julgado por todos."
No
entanto, a proposta é rechaçada por grupos conservadores e também pela
Organização Internacional de Migração (IOM em inglês), que teme que ela
estimule o tráfico de pessoas de países vizinhos para a África do Sul
durante a Copa do Mundo.
Segundo a entidade, legalizar a
prostituição facilitaria o trabalho dos traficantes principalmente
porque a África do Sul, ao contrário da Alemanha, ainda não teria
estrutura suficiente para se adequar à nova lei.
"Nós somos
contra a legalização porque nem a polícia nem o Departamento de
Migração têm condições de controlar esta situação. A África do Sul
simplesmente não tem capacidade para isso", diz Bongiwe Mlatsha, que
dirige o escritório da IOM na província de Kwazulu-Natal.
Partidos políticos
Até
agora, nenhum dos principais partidos do país se posicionou claramente
a favor da questão. A Aliança Democrática e o Partido da Liberdade
Inkhata condenaram a legalização em outras oportunidades.
O
Congresso Nacional Africano, que hoje ocupa 70% das cadeiras do
Parlamento, já se mostrou simpático à ideia, mas nunca colocou em
prática uma reforma na constituição.
"Para o CNA, ainda é mais
fácil apenas sustentar programas de assistência aos profissionais do
sexo do que tentar legalizar a profissão. Se eles fizerem isso, podem
perder o apoio dos eleitores mais conservadores", analisa Aneeke.
Não
há estatísticas precisas sobre a indústria sexual na África do Sul, mas
um estudo feito no bairro de Hillbrown, um dos pontos de maior
prostituição de Johanesburgo, revelou que lá trabalham entre 5 mil e 10
mil pessoas - 98% são negros, a grande maioria mulheres, e cerca de 5%
são menores de idade.
"Não há trabalho para nós, a maioria tem
filhos e essa é a forma que temos de nos sustentar. Não estamos
prejudicando ninguém, só trabalhando como qualquer pessoa. A polícia se
aproveita da gente, tira nosso dinheiro e ameaça nos levar para a
cadeia se não dormirmos com eles", denuncia uma prostituta que não quis
se identificar.
Chandre Gould, autora do livro Vendendo sexo na
Cidade do Cabo, acredita que a regulamentação é a forma de acabar com o
medo dos profissionais do sexo.
"Se a indústria sexual for
legalizada e descriminalizada, esses trabalhadores vão poder se
manifestar e não ficarão tão vulneráveis aos abusos e extorsões que
sofrem de policiais", defende a autora.
África do Sul discute legalizar prostituição antes da Copa de 2010
15/04/2009, 08:57 - Brasil/Mundo
Por redação
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