Hélène Berr viu o horror de perto e dele foi vítima. Poderia ser uma entre milhões de vozes judias destituídas de referências, caladas pela brutalidade nazista que violentou a Europa e ocupou a França. Mas escreveu com a dor que tomou conta da sua alma. Tatuou seu drama no mundo para jamais ser esquecido. E esse esforço resultou em O Diário de Hélène Berr, que chega ao Brasil pela Editora Objetiva (320 páginas, R$ 41,90).

No início do ano passado, o livro estarreceu a França. Provocou o seguinte raciocínio, estampado em resenhas: se as cada vez mais frequentes aventuras revisionistas ignoram que 60 anos são ontem no calendário da História, se as fotografias amarelecidas empunhadas por quem sobreviveu não bastam, o seu relato é mais do que oportuno.

O diário de Hélène relata o cotidiano de alguém que se via distante do Holocausto nazista, da morte de judeus pelo simples fato de serem judeus. Ela se achava protegida pelas ruas de uma Paris familiar, acolhedora. Acaba dando voz aos 6 milhões de judeus mortos.

Hélène Berr começou aos 21 anos, em 8 de abril de 1942, a delinear com seu texto elegante o desamparo de ser uma francesa judia na Paris ocupada, que vê os amigos e familiares sendo presos e deportados para a morte, que cuida com desvelo dos filhos de quem teve de partir. Até chegar seu próprio momento. Faz 67 anos. O diário foi mantido em segredo até 2002, quando o Museu do Holocausto, em Paris, recebeu os manuscritos como uma relíquia. Seis anos depois, o lançamento solene e tradução para 12 idiomas.

Estudante de literatura inglesa na Sorbonne, Hélène se reunia com amigos para tocar peças de Beethoven, Schubert e Bach ao violino. No seu diário, tratou de contar tudo o que outras garotas da sua idade escreveriam: a vida em Paris, a rotina na universidade, romances, viagens. Até que toda essa normalidade foi usurpada pela realidade da ocupação nazista.

O começo dessa brutalidade se faz sentir quando Hélène vive um dilema em 8 de junho de 1942, uma segunda-feira de “calor ardente”. É nesse dia que ela se vê obrigada a ostentar a estrela amarela que identificava os judeus. Ela hesita. Em um primeiro momento não quer usá-la. Considera “uma infâmia e uma demonstração de aceitação das leis alemãs”. À noite, reflete: “Acho covardia não fazer isso, em relação aos que o farão”. Mas o uso ocorreria de uma maneira “elegante e digna”.

A história de Hélène lembra a de Anne Frank, adolescente judia que na mesma época, trancafiada em uma exígua peça dos fundos de uma casa em Amsterdã, escreveu seu diário. Ambas tomam consciência de ser a ponta do caldo cultural europeu que fez dos judeus uma presa fácil desde que se dispersaram pelo mundo no início da era cristã.

Hélène, uma jovem de traços finos e inteligência viva, estava perfeitamente enraizada nos costumes da sua cidade. Desdenhava do preconceito religioso, o antissemitismo era algo distante. No transcorrer do livro, ela mostra o quanto foi duro constatar que as pessoas do seu entorno a viam de maneira diferente. Era uma estrangeira em seu país. Em 9 de junho de 1942, sentiu o peso daquela estrela amarela que passou a ostentar no peito.

O leitor acompanha o diário como a um romance. As primeiras páginas reportam a uma vida tranquila pelas ruas da Paris iluminada do Quartier Latin, bairro frequentado por Hélène e seus amigos. É um passeio que envereda, gradualmente, pelo desespero. As últimas páginas conduzem à prisão de Hélène, em 8 de março de 1944. Há em anexo uma carta sua, desse dia. O pior do inferno veio depois, como se fossem as etapas da Divina Comédia de Dante.

Em abril de 1945, Hélène morre de tifo no campo de concentração de Bergen-Belsen. É o centro do inferno – o fim. Ali, já não havia diário, que deixara de ser escrito um ano antes. Sua família restara dizimada. As ruas da garota já não eram as da Paris ilustrada, as do alegre cotidiano da aspirante a escritora.

Depois de ter ficado 10 meses sem atualizar o diário, Hélène voltou a ele no dia 25 de agosto de 1943, para dizer que os sofrimentos acumulados faziam com que não imaginasse o que relataria. Pediu que sua mãe guardasse os textos em um local seguro. Somente em 10 de outubro retomou efetivamente os relatos. Refletiu sobre a utilidade de escrever, como se questionasse o significado da vida.

À medida que chega o fim do livro, Hélène deixa clara sua desilusão. Divide o mundo entre quem compreende e quem não compreende o sofrimento de uma mãe que perde o filho. As últimas palavras do diário, em 15 de fevereiro de 1944:

"Horror! Horror! Horror!"