Mês passado, o Brasil se surpreendeu com a notícia divulgada pelo Jornal Nacional de um paciente de 53 anos que, após operação, passou a ter dois corações. O transplante heterotópico, como é conhecido, foi realizado pela primeira vez no Nordeste há exatos 20 anos.
Aqui em Alagoas, o motorista Fernando Bezerra de Lima, vive há oito anos com dois corações dentro do peito, virando a atração na cidade sertaneja de Estrela das Alagoas, com pouco mais de 20 mil habitantes e a 150 km de Maceió.
Com o coração antigo, o alagoano teria apenas uma semana de vida, segundo relatou o médico José Wanderley Neto, que fez a operação dele com a sua equipe na Santa Casa de Misericórdia em Maceió. O homem, de acordo com Wanderley, que em 2001 tinha 35 anos, apresentava uma quadro de miorcadiopátia dilatada.
O ventrículo esquerdo já não bombeava sangue o suficiente. O tempo era o maior inimigo. Só com ele, Fernando, não resistiria. "Tinha 1,80 e 138 quilos. A doadora era menor que ele e bem mais magra. O transplante convencional não surtiria efeito. O coração dela, sozinho, não aguentaria a nova demanda", relatou Wanderley. Foi aí que surgiu uma alternativa de sobrevivência: em vez de trocar um coração por outro, viver com ambos.
Com dois corações a esperança voltou a pulsar. A idéia, porém, soou estranha a princípio. Fernando, nunca havia ouvido falar do método. "Parecia lenda de interior", revelou o motorista numa conversa com o médico José Wanderley Neto. O paciente ouviu tudo e topou o desafio.
Com dois corações, porém, o paciente não teria garantias. Somente sete transplantados sobreviveram em 18 cirurgias feitas no Brasil, ou seja, 62% das pessoas submetidas a transplante morreram. Era topar ou morrer, recorda o paciente.
Em maio de 2001, o motorista aceitou apostando na vida. Com dois corações, Fernando é considerado um ilustre em Estrela das Alagoas, onde é um exemplar marido, vivendo com o filho Luciano, 11, e a esposa Renata Fernanda, 31, companheira há 15 anos. Ele tem fé em dobro para tocar a vida.
Fernando ainda teve força até para superar a morte prematura do segundo filho, que veio ao mundo com problemas cardíacos e faleceu com 21 dias de nascido, há cinco anos, devido a uma infecção hospitalar. "Se eu tivesse apenas um coração, não aguentaria", conta ele.
E com os dois corações no peito, a vida do motorista seguinte em frente.