Há 25 anos, como Bete Balanço, Débora Bloch virou emblema de toda uma geração de garotas roqueiras. Desde então, ela participou de filmes importantes, mas não tantos como gostaria. Um dos melhores foi Noites do Sertão, de Carlos Alberto Prates Correia, adaptado de Buriti, de Guimarães Rosa. Atriz de teatro, cinema e TV, Débora faz duas mães de famílias desestruturadas - na novela Caminho das Índias, de Glória Perez, e no filme de Heitor Dhalia, À Deriva, que estreia amanhã. Embora muito bem feito, À Deriva talvez seja um pouco decepcionante para quem esperava ver o diretor perseverar na linha de seus filmes precedentes, Nina e O Cheiro do Ralo. Débora é irrepreensível. Bela e talentosa.

Por que ela não faz tanto cinema quanto gostaria? "Não me convidam e, às vezes, quando o fazem, ocorre de eu estar comprometida com outro projeto." Poderia ser o quê? Ela é uma atriz cara, por exemplo? "Cara, eu? Não faço cinema para ganhar dinheiro. Para isso tenho a televisão." Isso significa que Débora encara a TV simplesmente como comércio, ganha-pão? "A TV é diferente do cinema e do teatro porque não dá muito tempo ao ator para elaborar personagens. É por isso que, na Globo, prefiro fazer minisséries." Mas então por que, ou como, foi parar na novela das 8? "A Glória (Perez) me deu um belo papel na minissérie Amazônia. Nem a conhecia e, depois, a Glória escreveu para mim esse outro papel, que também é muito interessante. Já passei da minha fase de filha." Bye-bye, Bete Balanço.

A mãe de Caminho das Índias viu o marido sumir (e pensa que ele está morto). Ela se casa de novo e a filha, rebelde, flerta com a criminalidade, ligando-se a um amor bandido. A repercussão está sendo tão grande que o assunto foi parar no Fantástico. A mãe de À Deriva é bêbada. "Uma coisa é você ler no roteiro que a personagem bebe e cai no chão. Outra é vivenciar a experiência", diz a atriz. Casada com um escritor de ascendência francesa, interpretado por Vincent Cassel, a personagem cobra do marido que seja prático e venda os direitos de um de seus livros para a televisão. Ele tem amantes. A filha adolescente, protagonista da história, vive os problemas dessa família desestruturada. A mãe tem segredos. Sua fraqueza vira a força de querer mudar.

O fato de Débora ter sido casada com um francês, Olivier Anquier, facilitou que ela ganhasse o papel? "Que nada, quase perdi por causa disso." Heitor Dhalia pensava inicialmente num ator de língua espanhola (leia entrevista com o diretor). Quando optou por Cassel, pareceu-lhe óbvio demais escolher uma atriz brasileira que havia sido casada com um francês de presença permanente na mídia." Débora, a esta altura, depois de ler - e gostar do - roteiro, também havia visto O Cheiro do Ralo e estava mais do que simplesmente disposta a trabalhar com Dhalia. Ela queria mesmo fazer o filme. A escalação de Vincent Cassel foi um ?plus a mais?, como diz o ator, produtor e diretor Daniel Filho, na escalada de seu interesse. "O Vincent era poderoso em O Ódio, de Mathieu Kassovitz, o diretor era talentoso e o roteiro me atraía. Finalmente, deu tudo certo e pude fazer À Deriva."

O filme foi a Cannes, em maio, na mostra paralela Un Certain Regard. Débora conseguiu licença na novela e foi para a exibição e a rodada de entrevistas com a imprensa internacional. "Foi a realização de um sonho. Nunca pensei que um dia ia pisar naquele tapete vermelho." Essa mundanidade foi, digamos, consequência. Antes, houve muito trabalho. "Tinha maturidade para interpretar a personagem. Conheço o desgaste de uma relação, o Vincent chegou cheio de ideias para improvisar e foi um estímulo bom. Acho que a experiência enriquece o ator e lhe fornece material de trabalho. Já vivi muitas histórias, é difícil não colocar algo da minha vivência, mesmo que, obviamente, eu não seja a personagem. Mas estou representando hoje as mulheres da minha geração, na faixa dos 40 anos, e acho ótimo."