Além de um acordo de US$ 1,1 trilhão para combater a pior crise mundial desde a Grande Depressão, antecipado quarta-feira por autoridades brasileiras, os líderes mundiais decidiram apertar as regras para evitar o agravamento da turbulência. Após a cúpula em Londres, o G-20 (grupo que reúne as principais economias industrializadas e emergentes do mundo) concordou em publicar uma lista de paraísos fiscais que pode resultar em sanções. O grupo também decidiu pela primeira vez impor supervisão sobre grandes fundos de hedge (instrumento que visa a proteger operações financeiras contra o risco de grandes variações de preço) e agências de classificação de risco.

O economista americano Paul Krugman, Nobel de economia de 2008, avaliou como positivos os resultados da reunião. No blog que mantém no The New York Times, destacou a linha de crédito para o FMI. “O resultado do G-20 foi melhor do que eu esperava, com algo substancial e importante emergindo – ou seja, muito mais dinheiro para instituições financeiras internacionais, além da expansão do crédito para o comércio”, escreveu.

Krugman também indaga se as medidas representariam “um ponto de virada na crise”. Ele mesmo responde: “Não, mas, realisticamente, a maioria das grandes reuniões internacionais produziu nada; e isto é algo significativo”.

A declaração final da reunião, detalhada nesta quinta-feira pelo primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, mostrou comprometimento das nações em aumentar a vigilância sobre os bancos e os paraísos fiscais para acabar com os “segredos bancários” e garantir um “sistema de alarme precoce” para crises econômicas.

– Este é o dia em que o mundo se juntou para lutar contra a recessão global. Não com palavras, mas com um plano para a recuperação e para reformas e com um cronograma – afirmou o anfitrião do G-20.

Brown acrescentou que os governos se comprometeram, desde o início da crise, com US$ 5 trilhões em estímulos públicos neste ano e no próximo, além dos compromissos extras anunciados na cúpula.

A declaração influenciou os mercados, que fecharam em forte alta, nesta quinta. Analistas fizeram questão, no entanto, de alertar contra a euforia.

– O financiamento para o FMI é mais do que se esperava e, à medida que significa mais dinheiro para ajudar as economias com problemas, é positivo – afirmou Nigel Rendall, estrategista do Royal Bank of Canada. – Mas os focos de problemas, particularmente na Europa Oriental, estão aí e não vão desaparecer de uma hora para outra.

Brown reconheceu não haver remédios rápidos, mas afirmou que as decisões da cúpula vão encurtar a recessão e poupar empregos. A avaliação é compartilhada pelo ex-presidente do Banco Central (BC), Carlos Langoni, para quem os resultados do G-20 não só surpreenderam pelo pragmatismo, como também confirmam o Brasil como um dos que mais se beneficiaram do encontro.

– Os resultados do encontro do G-20 vão permitir uma nova avaliação de risco do Brasil pelos agentes econômicos – exaltou Langoni, da Fundação Getulio Vargas. – A partir desse encontro, o Brasil vai deixar de ser tratado como só mais um país latino-americano.

O presidente do BC, Henrique Meirelles, disse que o governo brasileirao ainda avalia as fontes de recursos para o aporte do Brasil no FMI – uma das decisões da reunião.

Lula ironiza

Lula, aliás, disse que a reunião do G-20 foi a primeira da qual participou em que houve igualdade de condições entre emergentes e desenvolvidos. Em relação ao FMI, Lula afirmou, de forma irônica, querer entrar para a história como o primeiro presidente brasileiro a emprestar dinheiro à instituição.

– Você não acha chique o Brasil emprestar dinheiro para o FMI? Não é uma coisa soberana? – indagou Lula. – Agora não precisamos. Mas não tem soberba. Porque, se algum dia precisar e o Fundo for a única fonte, nós vamos atrás.