Até na desordem a praia faz jus à fama de ser o espaço mais democrático da cidade. Nela, ricos e pobres, jovens e idosos, funkeiros e playboys violam diariamente as leis que regem o lugar. Em vez de área pública, terra de ninguém. Basta percorrer as avenidas que margeiam as praias, do Leme ao Pontal, para colher imagens de como o carioca faz o que lhe dá na veneta na orla da cidade. No Leblon, uma família brinca com o cachorro; na Barra, jet skis evoluem quase na areia; em Ipanema, uma barraca oferece drinques de bebidas destiladas e camarão frito; no Recreio, um surfista usa a ciclovia como atalho para a sua scooter; em Copacabana, barracas na areia ignoram o espaço mínimo de 50 metros que deve haver entre elas. Para tentar organizar um pouco a bagunça, o Sebrae/RJ criou um projeto para aperfeiçoar o comércio na areia.

– Os vendedores das barracas poderão se formalizar como pequenos empreendedores, que faturam até R$ 3 mil por mês. Nosso objetivo é orientá-los para que possam gerir melhor os negócios – explica o superintendente do Sebrae/RJ, Sergio Malta. – A partir de agosto, de uma forma piloto, 50 barraqueiros vão oferecer aos clientes o pagamento por cartão de crédito via celular.

2 milhões num fim de semana

Em um fim de semana ensolarado, cerca de 2 milhões de pessoas escolhem a praia como programa, revelou o estudo encomendado pelo Sebrae/RJ para orientar o programa de capacitação dos camelôs da areia. Movimenta-se, sábado e domingo, aproximadamente R$ 2 milhões no mercado praiano. O Sebrae estima que por volta de 30 mil pessoas trabalhem na orla nesses dois dias. Na Zona Sul, de acordo com Sergio Malta, há 400 profissionais autorizados pela prefeitura a tirar seu sustento da praia. Um deles é Jurema de Souza Brilhantino, de 47 anos, cuja barraca, a 61-E, fica em frente à Rua Figueiredo Magalhães, em Copacabana. Faz 20 anos, diz, que vende cerveja e refrigerantes ali. Garante ter votado em Eduardo Paes, e diz que se o Choque de Ordem chegar à praia, será bem vindo.

– Trabalho direito, pago os impostos e tenho licença. Agora o que eu posso fazer se o cara bota uma barraca aqui do lado, grudada na minha, e está todo errado?

No calçadão, o descaso também não é raro de encontrar. Numa rápida passeada pelos quiosques mais antigos nota-se a falta de uniforme dos funcionários, que preparam os alimentos com a mesma mão que manipulam o dinheiro. A má conservação também é visível em grande parte deles. Segundo a Orla Rio, empresa que os administra, a previsão é que sejam desativados.

“A Orla Rio pretende levar o projeto dos atuais quiosques para toda a orla, que dependem (sic) exclusivamente da resolução de trâmites jurídicos”, respondeu, por e-mail, a assessoria de imprensa do órgão.

Apesar de não serem ilegais, os shows de música promovidos pelos quiosques da orla estão na mira da 5ª Região Administrativa, que cuida do Leme e de Copacabana. Cada apresentação realizada na no calçadão requer uma autorização prévia. Mesmo ganhando o ok da prefeitura, o dono do quiosque, por lei, não pode cobrar pelo agrado artístico que faz aos clientes.

– Mesmo quando autorizamos, o show não pode ser cobrado, nem couvert. Isso é ilegal. E a autorização não é permanente, tem que ser renovada a cada apresentação – explica Paulo Heráclito, responsável pela 5ª Região Administrativa.

Um dos espaços onde o desrespeito às leis cria mais atrito é a ciclovia. Apesar de apenas ciclistas, patinadores e corredores poderem usá-la, a via recebe tráfego de pedestres, scooters, patinetes elétricos e até cadeira de rodas.

A areia também sofre com a falta de educação dos banhistas. Num fim de semana de verão, a Comlurb chega a recolher 300 toneladas de lixo nos 56 quilômetros de praia do Rio. O coco é o principal vilão. Abandonada depois de consumida, a fruta é responsável por 60% do peso total coletado. Nem a multa de R$ 200 parece incentivar a prática do coco ao cesto.

Por e-mail, a assessoria de imprensa da Secretaria Especial da Ordem Pública (Seop) explicou:

“Todas as questões relativas a areia de praia como barracas e prática de esporte, estão sendo avaliadas pelo Comitê Gestor da Orla, formado pelas secretarias de Meio Ambiente, Esporte e Lazer, Instituto Pereira Passos e Ordem Pública”.