Especial Transplantes: Quase mil pessoas estão na fila de espera em AL

  • carlinhos
  • 24/06/2009 04:28
  • Saúde

Um transplante é indicado em casos onde os tratamentos médicos já não surtem efeitos. A possibilidade da pessoa sobreviver sem o órgão prejudicado e a preparação psicologica também são fatores que influenciam na hora da entrada na fila de espera, uma vez que após o procedimento cirúrgico, começa um tratamento contínuo, que inclui remédios e acompanhamento médico.

A região Nordeste ocupa o 2° lugar em transplantes de coração e o 3° de fígado e rins. A insuficiência de um órgão ou tecido pode vitimar qualquer um, independente de situação financeira, raça ou sexo. Porém, a maioria de receptores e doadores é do sexo masculino, com base em dados da Associação brasileira de transplante de órgãos (ABTO).

O sistema de transplantes brasileiro é considerado um dos melhores do mundo. Os procedimentos são subsidiados por recursos públicos, através do sistema único de saúde (SUS).

Segundo dados do Ministério da saúde, no Brasil mais de 60.000 pessoas estão na lista de espera e este número tende a aumentar porque cerca de 30% morre antes de conseguir um doador e menos de 10% recebe um órgão, á cada ano.

Em 2008 eram 768 pacientes na fila de espera em Alagoas e foram feitos 36 transplantes. Este ano, a fila já tem 4 pessoas á espera de fígado, 2 de coração, 310 de córnea e 585 de rim, num total de 901, sendo que até agora 6 de rins e 48 de córneas foram realizados.

O Estado realiza apenas esses quatro tipos de transplantes em Maceió e Arapiraca, no Hospital Universitário, Hospital de olhos Santa Luzia, Instituto de olhos, Instituto da visão, Centro hospitalar Manoel Andrade, Santa Casa de misericórdia e Hospital do açúcar.

De acordo com a compatibilidade, parentes de até 4° grau, maiores de 21 anos podem ser doadores vivos de partes de órgãos e daqueles duplos, como rins, fígado, pulmão e ainda, médula óssea, desde que a retirada não as impeça de levar uma vida normal.

Os voluntários não podem ser portadores de doenças transmissíveis - AID - e infecções graves ou câncer generalizado e no caso de não serem da familia, precisam de autorizaçõa judicial.

A Central de Notificação, captação e Distribuição de Órgãos e Tecidos de Alagoas, conhecida como Central de Transplantes, criada em 1996 pela lei estadual nº 5.867, ligada a Secretaria Executiva de Saúde, coordena os transplantes no Estado, promovendo o cadastro de potenciais receptores de órgãos e tecidos, além de comunicar ao Sistema Nacional de Transplantes (SNT) as inscrições efetuadas para a organização da lista nacional de receptores, recebendo notificações de morte cerebral ou morte por coração parado e ainda, providenciando o transporte de órgãos e tecidos para os Centros Transplantadores, instituições de saúde autorizados pelo SNT.

Segundo o coordenador da central, Carlos Alexandre, Alagoas tem evoluído em relação a doação de órgãos, principalmente com a realização de transplantes de córneas, embora em 2008 tenha sido considerado o Estado de maior resistência familiar.

"O índice de doações ainda é pequeno, mas isso está mudando. Nosso principal problema ainda é com a assistência hospitalar, para que o familiar tenha um suporte. A doação intervida é um procedimento que tem sido desistimulado em todo mundo, porque acaba tirando o órgão de alguém, o que no caso do fígado é bem complicado. Mesmo assim, este ano, dos seis transplantes de rins feitos aqui, cinco vieram de pessoas vivas", explicou.

O coordenador informou que em julho a central receberá uma nova sede para melhor atender a população. Também haverá um setor específico no Hospital Geral do Estado (HGE), pois a meta é que cada hospital tenha profissionais capacitados na área, que contarão com seminários e cursos.

Para aproveitar a divulgação feita através de séries de tv, como a do médico Drauzio Varella e propagandas recentes com artistas, também será promovida uma grande campanha publicitária local, para estimular as pessoas a serem doadoras.

No caso de cadáver doador, geralmente após morte encefálica causada por traumatismo craniano ou AVC (derrame cerebral), pela legislação atual, toda pessoa é doadora, desde que a família autorize a retirada dos órgãos, conforme a lei 10.211 de 23 de março de 2001, confirmando muitas vezes, o desejo da vítima. Não é necessário deixar nada por escrito para doar. Logo, órgãos como coração, fígado, intestino, rins, pulmão, córneas, veias, ossos e tendões são retirados com o objetivo de deixar o corpo integro e são necessários vários exames pré-operatórios.

Já na doação após parada cardíaca, as córneas podem ser aproveitadas. Os órgãos vão para pacientes que necessitam de um transplante e estão aguardando em lista única, definida e fiscalizada pelo Sistema Nacional de Transplante.

Doação intervida

Quando o eletricista Luiz Melo, 36, começou a sentir dores na região abdominal, em 2007, um médico diagnosticou uma infecção urinária. Mas, após elas persistirem por um ano, Luiz se submeteu a exames que comprovaram que um de seus rins já estava completamente comprometido e o outro, funcionava apenas 40%.

Ele começou a fazer 3 horas de hemodíalise, durante três vezes por semana. A máquina limpa e filtra o sangue, fazendo o trabalho do rim comprometido e controlando a pressão arterial, procedimento utilizado em pacientes portadores de insuficiência renal crônica ou aguda.

Devido à gravidade de seu estado, os parentes se mobilizaram para fazer a doação e se submeteram a exames de compatibilidade. Melo decidiu que os irmãos mais velhos deveriam ser priorizados na escolha.

Porém, a compatibilidade entre eles era de 70%, o que traria um risco maior de rejeição. Seu irmão mais jovem, Marcelo Melo, 28, era 100% compatível e resolveu se submeter à cirurgia. Foram mais de 3 meses antes do transplante, uma vez que o doador precisou fazer 32 exames e após essa etapa, a cirurgia foi marcada.

"Eu sempre pensei positivo e tive sorte porque só fiz um ano e meio de hemodiálise. Conheci pessoas que já faziam há 20 anos e hoje levo uma vida normal, embora sempre tenha que tomar medicamentos para evitar a rejeição e controlar a pressão. Não posso comer alimentos industrializados e sou beneficiário do INSS. Depois do que passei, tenho coragem para fazer qualquer coisa e quero ser doador. Muita gente tem medo, só que depois da cirurgia e do processo de cicatrização começa uma nova vida", contou Luiz.

Marcelo Melo contou que ele e o irmão foram internados dois dias antes do transplante e que a cirurgia durou cerca de 2h. Ele teve um hemorragia e precisou ir para UTI, onde passou 9 dias e seu irmão voltou para casa depois de 11 dias de transplantado.

"Senti muito medo por ouvir as pessoas dizerem que a expectativa de vida diminuiria, já que eu só teria um rim, mas agora minha vida está normal, embora na época eu tenha perdido muito peso. Faço uma revisão médica por ano e foi difícil passar por tudo aquilo", disse Marcelo.