Dominguinhos está literalmente na estrada. No período junino, quando é muito requisitado no Nordeste, o ilustre sanfoneiro de 68 anos amanhece, a cada dia, em uma cidade. Hoje, seu ponto de parada é a capital baiana.

Em Salvador, o discípulo de Luiz Gonzaga – de quem herdou o tom e a melodia do baião e outros ritmos regionais – mostra sua competência forrozeira no palco do Terreiro de Jesus. Seu show está marcado para as 22h30, pelo projeto São João da Bahia – Pelourinho.

“A animação é a mesma de todo ano, porque faço parte dessa festa há muitos anos. O forró está presente na minha vida”, diz Dominguinhos, por telefone, de Irecê, município onde se apresentou sexta-feira passada.

O repertório do show tem como base o recém-lançado DVD Dominguinhos, o seu primeiro em “50 e poucos anos” de carreira, como ele diz. O trabalho, gravado na cidade cenográfica de Nova Jerusalém (Pernambuco), reúne alguns dos maiores sucessos do artista.

Entre eles estão as clássicas "Eu Só Quero um Xodó" (em parceria com Anastácia), "Gostoso Demais", "De Volta Pro Aconchego" e "Isso Aqui Tá Bom Demais" (as três dele e Nando Cordel), "Lamento Sertanejo" (feita com Gilberto Gil) e "Tantas Palavras" (com Chico Buarque). “Além dessas e outras minhas, incluo no repertório do show coisas típicas do São João, muitas de Luiz Gonzaga e de outros representantes”, revela.

“ABERRAÇÕES” – De temperamento calmo, sempre aberto às novas informações musicais, Dominguinhos é do tipo que cumpre seu ofício com doçura e simplicidade. Mas não fecha os olhos para as “aberrações“ que a festa junina tem ganhado.
 
“Sou sempre a favor da inovação, mas não da deturpação. Tem muita gente fazendo o verdadeiro São João, mas há muita coisa que não tem nada a ver com o forró. Acho que é porque eles ainda não encontraram um outro nome para batizar o que estão fazendo”, ironiza, na sua sutileza.

O veterano forrozeiro acha que o São João deveria ser mais preservado na sua tradição. A falta de qualidade musical e a estética dos shows de alguns grupos, confessa, o incomodam. “O mal gosto que a gente ouve nas rádios e vê na TV e nos palcos é de chamar a atenção”, lamenta.

Impactado, ele ilustra: “Tem banda que diz: agora, vamos ver as raparigas todas desse lado. Isso é coisa que se diga para o público? E os figurinos, que parecem mais que são da Playboy?”.

Para Dominguinhos, incluir na programação junina nomes como Bruno e Marrone, Leonardo, Zezé Di Camargo e Daniel não é um problema dos artistas contratados, e sim dos contratantes que os procuram.

“O São João está mudando muito. Talvez as prefeituras devessem rever sua grade, dando oportunidade maior para as pessoas mais engajadas na festa”, considera o sanfoneiro.

Como acontece todo ano, a agenda junina de Dominguinhos é concorrida. Praticamente um show por dia. Até o final domês, o sanfoneiro ainda toca em mais seis cidades.