A economia dos países em desenvolvimento deve crescer este ano 2,1% – menos da metade dos 4,4% previstos pelo Banco Mundial (Bird) em novembro e bem abaixo dos 5,8% registrados em 2008. A previsão para a América Latina e o Caribe é de retração de 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB, soma dos bens e riquezas produzidos por um país), em média. A revisão para baixo foi divulgada hoje (31) pelo Bird.

A estimativa global é de declínio de 1,7% do PIB contra crescimento de 1,9% em 2008. Confirmado esse prognóstico, será a primeira contração da produção mundial desde a Segunda Guerra Mundial. Na atualização das Perspectivas Econômicas Globais, o Bird constata a existência de um quadro recessivo no mundo em desenvolvimento, o que aumenta a vulnerabilidade a choques repentinos e pode, na avaliação da instituição, inclusive reverter os avanços dos últimos anos.

O cenário é nebuloso em todos os segmentos. Para o comércio de bens e serviços, a projeção é de recuo de 6,1%, o pior resultado dos últimos 80 anos. O barril do petróleo deve continuar valendo menos da metade do que valia em 2008 e os demais preços, cair 30% em relação ao ano passado. Há, ainda, expectativa de “deterioração acentuada” dos desequilíbrios fiscais nos países em desenvolvimento, resultado da redução das receitas, do aumento dos custos de crédito e de maiores investimentos nas redes de segurança social.

O Banco Mundial estima que a situação seja mais grave nos países em desenvolvimento da Europa e da Ásia Central – o PIB da região cairá 2% em 2009, contra um crescimento de 4,2% registrado no ano passado. A instituição alerta, no entanto, que a América Latina estará entre os mais afetados pelo déficit de financiamento, ao lado da Europa, da Ásia Central e da África Subsaariana. Ao todo, a necessidade de financiamento do mundo em desenvolvimento deve chegar a US$ 1,3 trilhão.

Com relação a investimentos e comércio global, as áreas mais afetadas serão o Leste da Ásia e a região do Pacífico. A expectativa de queda no crescimento da China e de recessão em economias menores, como a Tailândia, levou o Bird a prever crescimento de 5,3% na economia da região em 2009. No Sul da Ásia, a expansão do PIB deve ser de 3,7%.

O relatório alerta ainda para o impacto da crise financeira internacional sobre as populações mais pobres, que já vinham sofrendo com as crises do petróleo e dos alimentos. Segundo o Bird, diminuiu o ritmo de redução da pobreza e, em função disso, cerca de 65 milhões de pessoas continuarão abaixo da linha da pobreza este ano, vivendo com menos de US$ 2 por dia.

Ainda há incertezas quanto à recuperação da economia mundial em 2010. O ritmo deve ser lento, com previsão de crescimento do PIB de 2,3%. A atividade econômica continuará desaquecida e o desemprego continuará aumentando em praticamente o mundo todo até “bem depois do início de 2011”, segundo estimativa do gerente de Tendências Globais do Grupo de Estudo das Perspectivas de Desenvolvimento do Bird, Hans Timmer.

Hoje (31), ao comentar a revisão dos números de 2009 na agência de notícias Thomson Reuters Newsmaker, em Londres, o presidente do Bird, Robert Zoellick, ressaltou que os líderes do G20 financeiro – que se reunirão quinta-feira (2), em Londres – não podem “esquivar-se”, de buscar soluções para restabelecer a confiança na economia mundial. Ele disse esperar a aprovação de um novo Programa Global de Liquidez do Comércio, no valor de US$ 50 bilhões, que combinaria US$ 1 bilhão do Banco Mundial com financiamento de governos e bancos regionais de desenvolvimento. E defendeu a reforma e capacitação das instituições internacionais existentes.

A necessidade de reforma para democratização do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI) foi mencionada pelos chefes de Estado e de governo das maiores economias desenvolvidas e em desenvolvimento na Cúpula de Washington, em novembro, e novamente reiterada pelos ministros de economia e presidentes de Bancos Centrais do G20 financeiro em reunião preparatória à Cúpula de Londres, há duas semanas.

Os países emergentes se recusam a aumentar seus aportes sem maior participação decisória nessas instituições. Entre as propostas em estudo pelos grupos de trabalho do G20 financeiro está, inclusive, a possibilidade de criação de uma nova instituição multilateral que ficaria responsável pela regulação e fiscalização do sistema financeiro global.