Não pude conhecer meu avô materno. Dediquei boa parte da minha vida a estudar sobre ele, em função das histórias que me contavam. “Agnelo Nunes era idealista, um sonhador dentro de seu terno azul marinho”. Esta foi a frase que mais escutei sobre o cidadão que ajudou a desbravar o cinema em Alagoas, ao participar de um filme antigo Casamento a Negócio, que tive a chance de assistir por três vezes. Nas três – confesso – não contive as lágrimas.

Até hoje, quando vejo os gurizinhos sendo colocados no colo por seus avôs, sempre me bate um aperto no peito, em função da identificação que tenho com Agnelo. Não desmereço a importância de meu avô paterno, que ainda é vivo e teve significativa participação em minha infância, mas é que o velho Agnelo parecia demais comigo, ou eu que pareço demais com ele. Nunca sei colocar essas frases na ordem, se é que elas possuem ordem.

Lembro-me das histórias de luta do velho Agnelo, que teve de deixar o mundo – por ironia do destino – antes da minha pessoa chegar aqui. E o mais irônico (o que me dá uma alegria) é ver minhas tias e os que conviveram com ele – em especial o amigo Guido – relatarem que nos daríamos muito bem. Seriamos unha e carne, por conta das minhas paixões por Literatura, Filosofia, Música...dentre outras que faziam parte da vida do meu avô...

Quando criança, passava horas olhando as fotografias dele. Meus pais nunca souberam, mas eu conversava com ele, ainda que no sentido metafórico. Logo em seguida – em ainda com 12 anos de idade – os discos de Agnelo foram parar na casa de meus pais. Ninguém os escutava a não ser eu. Tardes mágicas ouvindo ópera, Richard Wagner, Vivaldi, Mozart, Bach...músicos que nem sonhava se eram famosos ou não, mas que povoaram minhas tardes de sonhos. Wagner foi fundo musical da solidão da adolescência. Confessei ao meu avô minhas primeiras paixões, escrevi para ele os meus primeiros poemas. Ouvia dele à recriminação diante dos erros das métricas e das rimas pobres. Ele queria rimas ricas; ele me cobrava Literatura. Sobretudo, quando achei o seu Schopenhauer.

A primeira vez que fui ao Rei Pelé – ao lado de meu pai, um regateano fanático – quase torci para o CRB, mas ao chegar em casa fui para o quarto onde eram guardadas as coisas deixadas pelo meu avô, livros e discos, em especial. Lá mais uma vez, do nada, descobri que ele era azulino pelas fotografias. Fui recriminado mais uma vez e nasceu minha paixão pelo CSA, que dura até hoje. Para desespero do meu pai. Mas, eu precisava construir os elos com o meu melhor amigo que teve a ousadia de deixar esse mundo sem saber de mim!

Logo mais, alguém me disse que ele gostava do Palmeiras. E lá vou – um quase flamenguista – tirar a blusa do Flamengo e vestir a do Palmeiras. Bem, vira-casaca sim, mas por amor a um cidadão que povoou meus sonhos. Hoje, é mais um dia dos avós. Mais um dia que me prometo escrever a biografia do velho Agnelo e – por mais uma vez – eu falho. Não consigo passar das primeiras linhas, sem que as lágrimas não se façam presentes. Que frases ele teria me dito, quando juntos estivéssemos debruçados sobre Carlos Drummond de Andrade, um de seus preferidos.

Como teria sido atravessar a cidade com ele, vestindo o seu terno Azul Marinho, o chapéu panamá, a caminho do Mutange. Será que na volta – após uma derrota do CSA – ele me diria, o que já disse para um amigo: “Perder ou ganhar é consequência; viver em busca da vitória é que é uma escolha que deve sempre ser feita”. Ou como em Casamento a Negócio, quando disse: “alguém tem que fazer o papel do vilão, para que as pessoas notem exatamente a importância do bem” e lá foi interpretar o antagonista da história.

E quem vai duvidar que Agnelo está aqui comigo? Nem eu duvido, do alto de todo o meu ceticismo...feliz dia dos avós para todos vocês! E assim, agradeço ao meu pai e ao meu sogro, por serem para a pequena Bia Vilar, o Agnelo que eu não tive!